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Casas vazias com estórias

Passagem para os serrados


Entrada para a casa antiga

Nesta área estava a manta sobre o mato...



Saí de casa, numa tarde muito quente deste último Setembro, de máquina pendurada ao pescoço. Vou para baixo ou subo? Cortei à esquerda, subi devagar a calçada íngreme de pedras brancas. Fui olhando as casas, algumas em ruínas, recordando quem lá viveu. Não andei muito e dei comigo aqui, neste local com estória, das minhas inúmeras passagens pela Cerdeira com a senhora minha Avó, mal começavam as férias de Verão. 
Está assim, com ar de abandono e de de ninguém por aqui passar há tempos, nem a caminho dos Serrados, agora por amanhar. 
Olhei à volta à procura de poiso, queria viajar no tempo. Resolvi ficar de pé, pois não estou só e não desejo de modo nenhum incomodar outras criaturas que sabemos gostam de aqui para sua casa. Espequei-me ao lado da figueira quase brava, que vem estendendo os seus ramos até às silvas que por sua vez já tentam entrar por baixo da porta encerrada. Casa adentro. Casa vazia de gente.
Dantes, lembro-me, esta casa era térrea, com as lojas para a rua e nas traseiras, ainda cá está, a  entrada. Um pé alto com pouca altura, assim permaneceu durante muitos anos. Até Ti'Águsta e Ti'António da quinta se irem ambos. É no sítio Pissarrinha. 
Puxei pela memória, fiz-me a miúda que fui a passar férias com a Avó Olinda, que gostava muito de se juntar a esta prima, a Ti'Águsta da quinta (era a da quinta por haver outra Águsta, a do Casimiro) para falarem, delas e dos outros. 
Lembro-me que se riam muito. Riam até às lágrimas. Dos temas, não, não me lembro. A este duo divertido, juntava-se por vezes a Ti Ana, uma mulher grande, mais redonda que a Avó Olinda, vestida de preto e com os cabelos brancos apanhados em carrapito. Não era prima, mas virava-se muito para estas bandas. Por vezes trazia a sobrinha Matilde, miúda da minha idade que hoje vive na Lousã e já é avó.
Há meio século atrás, não sei se alguém que me lê se lembra, colocavam mato nas ruas e à entrada das casas. Era uma maneira de manterem o piso seco e as casas menos sujas. É que depois, sempre passavam os bois e os rebanhos de cabras, largavam os seus «presentes» e era tudo reciclado para adubar as terras. Sorriu e penso mudámos assim tanto por aqui? Que o que se entende por saneamento básico, que é a atividade relacionada com o abastecimento de água potável, o manejo de água pluvial, a coleta e tratamento de esgotos, a limpeza urbana, o manejo de resíduos sólidos e o controle de pragas e qualquer tipo de agente patogénico, visando a saúde das comunidades, ainda hoje não se faz a sério. Existem por cada casa, as fossas, algumas séticas, outras encanadas para locais que nem vou escrever; a água das chuvas, leves ou intensas, desce as calçadas e arrasta os resíduos; o que sai das torneiras, é mal pago mas bem taxado, não engolido sem se ferver e há as fossas, que no querido mês de Agosto não aguentam o uso e derramam o seu conteúdo. Os lixos, apesar dos recipientes camarários, ainda salpicam os caminhos, deixados, mandados, despejados. De electricidade em casa, só há uma vintena de anos se usufrui. Cobertura de redes para viajar na Internet com o Magalhães :) ou o simples uso de telemóvel, népia. Em pleno Século XXI, no Portugal, país europeu aderente ao Euro. O nosso futuro está longe de ficar mais civilizado.
Mas andemos, na escritura da memória. Estava a recordar o mato fofo nas traseiras da casa, coberto com uma manta de trapo, sobre a qual nos sentávamos, já com o sol passado para poente da casa. Estava bem ali, depois do lanche, a olhar o céu, a brincar com caruma, com bichos de conta e com carreiros de formigas, às cinco pedrinhas (que me lembrei eu) porque era uma criança-neta com sua querida avó, era bem tratada, estava fresco e cheirava bem. 
Volto à casa e à sua dona, a modos de despedida. A porta sempre aberta quando eu dava a volta e aqui me têm. Lá de dentro, no escuro com cheiro de lenha a arder na cozinha, de broa e sardinha frita,  surgia uma mulher pequenina e franzina, bonita, com um lenço na cabeça, a limpar mãos ao avental e uma voz que ainda consigo lembrar, fina e arroucada da Ti'Águsta da quinta: «Ó minha querida, estás tão bonita hoje! Dá-me um beijinho...»
Lamento muito olhar para «isto». Foi uma casa de família - lá nasceram 5 raparigas e 1 rapaz, se não me falha a memória. A maioria multiplicou-se e procuraram outras moradas. Presentemente a casa da Ti 'Águsta da quinta é de quem a habita. É das silvas e de outras criaturas autóctones, não dos herdeiros, que não a habitam. Por isso deu-me vontade de contar esta estória, que eu protagonizei. Para deixar aqui.
O cheiro a figos e a amoras invadiu o meu atual espaço, trazido por uma aragem quente. Saudades delas, pensei, ao clicar as fotos. Muitas foram as horas que aqui me senti bem, eu, a única miúda guardada pelas três mulheres, que conversavam entre si e riam muito do que contavam. E que já se foram. Olinda, Augusta e Ana. Porque «quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana»*


Escrito em 30 e Setembro de 2011.


*Marguerite de Crayencour

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Bianca, a sortuda


É sortuda porque é minha. Nunca a abandonaria. Hoje, estava carente. Pediu-me colo, pondo as patas nas minhas pernas. Eu estava sentada, com o laptop à frente, a construir a «minha» cidade da alegria, no jogo cityville, no facebook. É uma maneira como qualquer outra de deixar passar o tempo. 
Olhei-a. Não dava muito jeito pegar-lhe.Quando ela me olha com um olhar tão doce e as orelhas para trás, fala-me ao coração. Eu não lhe resisto. 
Coloquei no colo, ela ajeitou-se para receber festas. Mandei-a deitar e ela virou-se, cheirou-me e deu-me umas rápidas lambidelas. Depois deixou-se descair e encaixou-se. Faz-se pequena, mais pequena do que já é, arredonda-se e ali ficou no meu colo. Passaram uns minutos. Quase adormeceu. Não me dá muito jeito continuar a tê-la naquela posição porque o meu braço começou a ficar dormente. Cliquei-a umas vezes com o telélé.
Enquanto durou esta troca, foi bom. É muito bom ter companhia, a companhia de uma quatro patas, quando se está sozinha. É a minha amiga, o meu alerta, a minha sombra. Só até Marido chegar. A partir do momento em que o pressente, vira paixão e a atenção é toda para ele. Mas eu não sou ciumenta.

Obrigada pela visita

O meu amiguinho Afas, em meados de 2008, foi clicado por mim, à porta do Lote 5, em altas velocidades pelo passeio abaixo.
Como o tempo passa depressa.
É muito bom sentir este rapazinho manter-se Amigo. Quero eu dizer que, como vizinha cota, o receio de perder a sua visita é normal. Se nem os «sobrinhos» se lembram ...
Mas ainda não foi desta. Apareceu há dois dias. Para contar das férias, das viagens e de coisas giras que aconteceram. É um puto bem disposto, exigente nos gostos e com muito bom aproveitamento escolar. Aparece com o tempo contado. Após uma conversa sobre como vai a vida, com a sua voa arroucada pergunta-me sempre se tenho o computador ligado porque me traz novidades dos mais recentes exitos que nos fazem, a mim e a ele, ficar bem dispostos. Dos meus gostos musicais ele já adoptou alguns, rockeiros no máximo. Dos gostos dele é perfeitamente normal eu já não acompanhar, pois o meu tempo é outro e raps, hip-hop e hurbanes ou afins, não me seduzem. E ele compreende, sou cota não é?, o que me deixa encantada.
Desejo a este rapaz muita saúde e sorte que nos seus 14 anos e no contexto atual, bem precisa. Ele e toda uma geração de gente a «fazer-se» que tem de dar a volta à isto.
Verei? Veremos :).

Um xi-coração Afas.
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Sabem sempre a pouco, os dias de férias.


As férias acabaram. Há dois dias. Marido foi trabalhar. Voltou a rotina. 
Apeteceu-me vir até aqui, reviver e publicar, momentos bons que nos aconteceram.
O dia de hoje, lá em cima na Serra, deve estar como o da foto, quente e com céu azul, tal como aqui, em Lisboa. Já sinto saudades.
O chapéu está guardado mas as cadeiras estão vazias e expostas em frente ao meu Penedo. Sentei-me pouco nelas, reparo agora. Quando os dias são bem aproveitados, bem vividos, ficam na memória. E não conseguimos usufruir, o quanto queríamos, os bens materiais que vamos adquirindo, porque a reforma ainda vem longe e sem data marcada. Ficam, os bens espirituais. Enquanto a memória nos deixar voar, revive-mo-los.
Foram dias de passeios à Pena, Aigra Nova e Comareira. Arganil e Avô. Lousã. Barragem de Santa Luzia e Parque das Merendas da Oitava, Poços e Igreja de Santo António da Neve, com farnel atrás e boa companhia. 
Foram dias de visitas. À Marisa, à Olinda, a umas lojinhas. E a novos conhecimentos. 
A última semana, foi passada em descanso, com tardes à beira do Rio Ceira em Góis, sem muita afluência e com relva, água menos fria que o habitual, mas com as habituais e chatas moscas e os mais de trinta graus centígrados de temperatura. Meti conversa com o Goiense Pedro, a mulher Sandra e a filha Vitória, de três anos de idade, que era mergulhada ao de leve nas águas correntes do rio, ao colo do pai ou às costas da mãe, como um patinho. Mas também fomos incomodados por um grupo de jovens a caminho da adolescência, goienses muito mal educados, que gozavam os últimos dias de férias à solta e sem controlo de adultos, dando mergulhos e incomodando com gritarias, bicicletas e vocábulos impróprios para a sua idade, quem procura paz e sossego. 
Quem os irá «aturar» quando as aulas começarem?!
Olho a foto e despeço-me.

Estar de bem




Acabada a «reportagem» resumida da subida aos Penedos de Góis (neste momento não disponho de mais material para colocar aqui), volto ao que foi o meu fim de semana prolongado, que soube muito bem e retemperou forças para mais uma quinzena de trabalho. São só mais uns dias, vá lá! Estamos a meio do «meu querido mês de Agosto». Quando Lisboa se encher de novo, os emigrantes voltarem ao País do trabalho, lá vamos nós, gozar as restantes férias do ano para a Serra, de onde não me apetecia nada ter saído ontem. Mas a vida apresenta-se assim. Há que encará-la, não?
Como diz a frase: «Há homens que têm patroa. Há homens que têm mulher. E há mulheres que escolhem o que querem ser» ... eu quero ser e sou a mulher que acompanha o seu homem, que convive com o seu homem e que não depende dele, monetariamente. Daí estar de novo em Lisboa. A escrever, a fazer de dona de casa, enfim, por aqui.
Apesar deste meu feitio se adaptar às circunstâncias, sinto que da minha vida irei sair a perder ... entre o que sou e o que queria ser, vai um passo de gigante. Para me explicar melhor dar um exemplo, eu queria muito ter ficado lá em cima, no meu cantinho na Serra, a cuidar das «minhas» courgettes e dos vasos dos tomates e do pimentinho pequenino e do cantinho das aromáticas, que lá estão, sós, à espera duma pinga de água, que eu sei, vão tendo. Mas não sou eu que dou. E queria. E quando a noite chegasse, arranjaria um local à sombra de qualquer luz, ficaria quieta, namorando o som silencioso da Estrada de Santiago, ouvindo apenas cigarras ou ralos, quiçá um mocho ou uma coruja, que vivem nos pinhais e eucaliptos da band'álem. Olhando para cima, àqueles pontinhos minúsculos a vidas de distância, jogaria palavras para o ar, daquelas que eu tanto gosto: «serena, chama, subtil, perfume, alvo, murmurinho, alma, aia, âmbar, cisne»*. Lembraria momentos, pessoas, vozes que por ali já passaram. Até chegar o primeiro sinal de cansaço, um bocejo, ou porque não, a visita de João Pestana. Sem Internet, sem um risquinho sequer na rede do meu telélé.
Lá, onde a calma reina, eu senti-me-ia bem. Mas não fiquei lá. Segui-o. E vou estando por aqui, fazendo daqui o melhor que puder e souber.


* José Eduardo Agualusa - Milagrário pessoal; pag 58

Subida ao Penedo de Góis - o começo.

O 1º grupo já ia a subir, algumas vezes tapado pelos calhaus e pelo mato. Estive a fotografá-lo com a máquina do senhor meu Irmão, o Jaime, dado que ele gostava de ter a reportagem completa. Para além disso, o meu telélé não tem hipótese de aproximação condigna com o esforço que eles iam despender.
Entretanto o grupo que se levantou mais tarde por causa da ida à festa a Góis, resolveu meter pés a caminho, perto das 10:00h, um pouco tarde para uma tarefa destas, apesar do Sol brilhante e céu azul que anunciava queimar a pele dos mais encalorados, porque definitivamente a sapeira tinha-se dissipado e o Penedo mostrava-se em todo o seu esplendor convidando os caminhantes a não desistirem.
Continuando eu atenta à minha reportagem fotográfica dos primeiros 3, aguardava a todo o momento a explosão sonora que costuma existir por parte dos que foram e por parte dos que ficam na Cerdeira a vê-los ir, a vê-los progredir na subida, quando mutuamente se vêem.
Fiquei à cóca, a ver quando eles apareciam na estrada do Vale Torto. De repente, o silêncio das 09:50h daquela manhã de Domingo, foi cortada por gritos (uis prolongados), o som de uma concertina ao vivo (Ó minha Rosinha), outros sons trazidos pelo eco, palavras soltas ... e lá estava a bicha de mais de uma dúzia de camisolas coloridas, afugentando cucos, pardais, corvos e outros autóctones com a tradicional berraria de quem se mete por atalhos e se quer fazer ouvir ao longe, por nós, que lhes respondemos também. Ficou gravado o meu grito, que foi espontâneo, e por isso desculpem lá. Também uma frase sentida e um shiu à minha Bi, não fosse ela entrar na festa e «comentar ladrando».
Portanto o filme onde gritei e exultei foi um modo de estar com os retardatários e avisar os outros três, já mais acima na subida, que a caminhada combinada de véspera estava a ter o seu começo.



Ontem, 4ª feira, 10 de Agosto

Impossível estar-se confortável em dias super-quentes. Não me dou muito bem com o tempo excessivamente quente. Sempre que a temperatura ultrapassa os 30 graus, pareço uma galinha, de bico aberto, mas em vez de me deitar, como fazem os povos dos lugares quentes, não paro sossegada. Pois foi. Que calor! Tinha as janelas e os estores fechados, é assim que faço. Só à noite, abro tudo, para entrar o fresco da noite e os mosquitos também. Raça de mosquitinhos que este ano nos apoquentam. Não fazem barulho, não são melgas, mas as bábas aparecem e dão uma comichão doida.
Entrei na cozinha. Passava das 17 h, tinha de pensar no jantar, mas ia-me dando uma coisinha má.
E a culpe é dele. Do π'u (Pi'u) O que eu passo, só por causa do meu canário ser feliz. Bastou um palmo de janela aberta para sua excelência se distrair e o calor entrou. Ele adora o calor, eu nem por isso. Canta, repenica o canto, molha a cabeça com frequência na banheira, mas coisa estranha, é que eu nunca vi um canário que não se soubesse banhar. Este é mesmo só a cabeça, até tem as penas da cauda escuras. Dada a ignorância do bicho, eu borrifo-o. E ele gosta. Lavar-lhe a cauda com sabão azul e branco vai ser programa para Marido se entreter, antes de férias. Tenho receio de o agarrar e depois abrir a mão e não vai sair de casa assim, todo sujo.
Mas ontem, ontem foi demais. Como poderia estar tão quente, na cozinha? Olhei o termómetro, prantado no frigorífico. Marcava 30 graus Centígrados. Credo! Não terei eu algumas sobras no frigorífico para uma refeição rápida? E tinha. Saí da cozinha e só voltei a lá entrar quando começou a correr um fresquinho, eram 18h e picos. Abri as janelas todas, pus a ventoinha a trabalhar e comecei a minha faina. Preparar os ingredientes para uns Pataniscos de Corvina com uma salada de feijão verde.
Amanhã, parece que continua quente. Céus!

Foi há dias


Era meia noite e qualquer coisa quando me lembrei que tinha uma máquina de roupa para estender. Lá teria que ser. Apaguei a televisão. Estava tudo em silêncio neste meu sítio. O sono não vinha e o calor ainda estava instalado dentro de casa. Abertas as janelas, corridos os estores há umas horas e nada parecia estar mais fresco. Já Marido e Bi adormeceram há que tempo. A mim, o joão pestana visita-me sempre muito tarde.
Acendi a luz, tinha de ser. Levantei os estores devagar. Ai as melgas!, pensei. Mas que bom lá fora! Lá fora é que apetecia estar. Deixei-me ficar de braços cruzados sobre o parapeito, a imaginar. Se fosse a conversar seria óptimo.
Lembrei os tempos idos e a tagarelice das vizinhas. Se hoje ainda se usasse estar nas ruas, ou sentados às portas ou às janelas a tagarelar com os vizinhos, decerto o sono viria naturalmente e iríamos mais frescos para a cama. Hoje, nas cidades grandes, tudo ou quase tudo se modificou. Fecha-mo-nos a sete chaves e vivemos muito mais sós.
Inspirei os aromas da noite. São a minha companhia na tarefa que me aguarda. Aromas que cérebro adentro me despertaram uma sensação fantástica de déjà vu!. Lá fui estendendo a roupa, peça a peça bem esticadas, duas molinhas da mesma cor a segurá-la no estendal, a noite escura iluminar-me, a ver se me lembrava. Meia dúzia de luzinhas das casas em frente, mas afastadas, eram o sinal de ainda gente a pé, como eu.
Fui sentindo mudança no tempo e veio uma brisa quase tropical - fresca mas húmida. Mas onde é que eu já vivi isto? Aquele aroma, um pouco a maresia, apanhou-me desprevenida. Mas levou-me a outras latitudes. Luanda e as noites de calor à espera do sono, pai e mãe a tagarelar com a vizinha Alexandra que esperava o marido Sr. Fernandes, que tardava a chegar!
Fui e vim num quarto de hora. Tão fácil. Tão bom. Dei por mim a trautear, baixinho, «brinca na areia, na areia, na areia ...». Ora esta!
Terminei a tarefa. Estava cansada fisicamente. Adormeci com esse aroma, esse ir até aos confins da memória e senti-me bem.
No dia seguinte, o «brinca na areia» ainda estava por aqui. Pois. Tenho o single, oferta da tal D. Alexandra, vizinha do lado muito querida, lá da Salvador Correia, em 1969. Está guardado como uma relíquia, entre outras relíquias em vinil. Não iria buscá-lo. Grande e desafiadora seria a trabalheira de subir o escadote quando estou sozinha em casa. É coisa que recuso fazer. Mais fácil foi entrar no Youtube e procurar. Quem sabe, talvez encontrasse essa musiquinha que encerrou o meu dia anterior como um dia feliz.
A tecnologia e a partilha das coisas boas na Internet, existe. As más, não as procuro. Quando vêm ao meu encontro, mando-as directamente para o caixote do lixo.
Aí está ela. Encontrei-a. Partilho. Espero que apreciem.

Tenham uma boa 2ª. feira.

(Escrito em 27 de Junho 2011)

Uma mão cheia de miminhos

O sino da entrada da casa foi tocado. Fui à porta, abri o janelo e olhei Deolinda, que com o seu bonito sorriso me disse: «gostas de cerejas?»
De seguida estendeu um recipiente com uma mão cheia delas.
Abri a porta e aceitei - «se gosto!».
- «Não são muitas».
- «Chegam bem, obrigada».
- «É só um miminho».
E que miminho.
Bem hajas Deolinda.

Frutos de trabalho

Não é de todo a mesma coisa. Ir ao supermercado e comprar ou ir à fonte, à natureza e colher. Na Serra, o senhor meu irmão tomou conta e muito bem, da sua herança. Manteve as árvores anteriores que não morreram e tratou-as. O Serrado, local destinado há anos para as árvores de fruto, foi muito bem recuperado. Todos os frutos anteriormente eram a modos que selvagens. As maçãs, as ginjas, as cerejas e as ameixas, eram degustadas, mas sem grandeza. Actualmente, sem ele usar produtos químicos, só adubo natural, água do céu e não granizo, e muitas cavadelas, a mãe-natureza encarregou-se de devolver a quem a tratou bem, o fruto do investimento quer monetário, quer do trabalho. A sorte sai, às vezes, a quem a merece. As ameixas brancas e as roxas tombam os ramos, pelo peso dos cachos, ainda pequenas e verdes. As maçãs, também estão pequeninas, esperam mais uns tempos para serem degustadas. As ginjas, enfeitaram timidamente a sua mãe velhinha, talvez com 40 anos. Muito ácidas, talvez sejam uma trintena as que apanhámos. Olho-as ainda hoje, já em Lisboa, sem saber que destino lhes dar.
Agora, as três cerejeiras plantadas e enxertadas estavam a oferecer, timidamente, talvez por serem jovens, algumas cerejas de bom calibre, rijas, doces e de três cores. Umas esbranquiçadas, outras rosadas e outras vermelhas escuras. Novidade foram as framboesas. Mais junto à terra, bem enraizadas e alinhadas, esticadas na vertical e presas por fios a umas estacas, via-se que foram colocadas por quem sabe, ofereceram naquele dia da nossa visita, duas bolinhas prontas a serem degustadas pelo seu estado de maturação.
O dono não estava... ou eramos nós a degustá-las ou os passarinhos ... optámos pelo baptismo e apreciámos pela 1ª vez o seu sabor. Uma para cada um. Bonitinhas, embora não ficássemos apaixonados nem pelo seu sabor nem pela textura.

Ficam os parabéns ao senhor meu irmão pelo esforço em conservar, a alguns quilómetros de distância do seu dia-a-dia, um espaço que me proporciona este prazer de chegar, olhar e colher, levar para casa, passar por água e degustar. Prazeres estes perdidos há muito pelo consumo desenfreado que nos incutiram, nesta sociedade cada vez mais impessoal em que estamos inseridos. Bem-hajas.

Final da Liga Europa

A grande notícia de hoje: futebol. O resto das notícias arrastam-se, com nada de novo.

Deixei de reagir a um desporto chamado futebol e à minha equipe do coração, desde o tempo em que houve uma morte de um adepto do sporting por causa de um "very-light" lançado por um adepto do benfica, num momento que devia ser de festa, no estádio nacional, em Lisboa.
O futebol é uma fenómeno desportivo que move o povinho e a elite de uma sociedade. Mas o estádio de futebol é também um local onde a bestialidade humana se manifesta.
Quando os ódios, os recalcamentos, as vicissitudes da vida transformam um ser humano numa besta, num local onde devia haver emoção e alegria pelo simples facto de se estar a assistir ao vivo a um evento de grande envergadura como é o final de qualquer taça, num espaço como um estádio de futebol, algo está mal. E este povo, a que eu pertenço, não evoluiu assim tanto em 15 anos.

Estamos em tempo de crise e que crise. Ouvi que o custo da ida a Edimburgo para assistir ao jogo ronda os 700 Euros. Ouvi, também, na RTP1 de manhã, no Porto, alguém conhece alguém que anda à rasquinha e nem dinheiro para comer tem, mas vai à final da liga europa. Eu não compreendo, nem aceito esta dependência. Eu gostava muito que o meu país não voltasse a ser o país dos três «ef's». Fátima, Fado, Futebol. Mas está a ser de novo. A crise não é só económica. É muito mais dentro, no âmago de todos nós.

Hoje, 18 de Maio de 12011, faz 15 anos que isto aconteceu. Estive a procurar informar-me sobre este assunto, hoje, por ser dia de festa do futebol português, em Edimburgo. As equipas são outras, os adeptos, não sei não. Só quando tudo acabar saberei. Se calhar, só amanhã.

Que as emoções sejam positivas. Seja quem for que ganhe, é porque merece.

Lar. A casa-lar possível em certas circunstâncias

A adiar a visita, sem outra desculpa que não fosse a falta de transporte. Está em Caneças, num Lar. Deve de ser um dos poucos residentes, conscientes de onde está. É o meu primo Zé Maria. Fará este ano 91.
Fomos no dia de Carnaval. Não é tarde nem é cedo. O Governo não tirou a tolerância de ponto e Marido ficou disponível. Estava a chover. Ir onde? Visitar o primo Zé. E fomos. Levei comigo «o nariz de palhaço» para ver se o alegrava um pouco e uns pastelinhos de nata que o fazem dar estalos com a língua, tanto que gosta deles. Chovia imenso em Caneças. Com a sua filha como cicerone - vai em frente, corta à esquerda, e agora sobe aí - parámos em frente ao edifício. Entrámos. Uma lufada quente invadiu-me. O ambiente costumeiro de um Lar de gente idosa. Sem cheiros, que é coisa que logo me aflige. Todos sentadinhos, agasalhados num ambiente aquecido, espalhados em perímetro quadrado por duas grandes salas, com a televisão acesa em som de fundo e de companhia. Móveis clarinhos, paredes brancas, alguns quadros. Bons dias e sorrisos da minha, da nossa parte que não foram entendidos. Algumas cabeças ergueram-se, alguns olhares a procurar reconhecer se era para eles a visita mas que logo baixavam à posição inicial. Nem um som.
Fiquei a matutar se não haveria outra maneira de comunicar com eles, algo que os fizesse «acordar», mesmo sendo só de passagem. O meu primo Zé não está assim, felizmente para ele e para todos os que o visitam na sua nova residência, no seu Lar.
Subimos ao 1º andar, num elevador. É lá que costuma ficar, disse a filha, enquanto não é a hora do almoço ele não desce. Pus o nariz vermelho. A filha e Marido olharam-me, abanaram a cabeça e deram-me a modos de um sorriso amarelo. Feitios.
É uma sensação estranha, que se entranha, não agradável, entrar num Lar de idosos. Imaginamos o nosso futuro. E não foi uma boa sensação o que senti.
Encaminhá-mo-nos pelo corredor em direcção a uma sala e lá vinha o primo Zé, agarrado à sua canadiana. Especou-se. Olhou-nos e pela expressão a modos que pensava que uma conheço mas a outra ... quem é aquela?! Depois reconheceu-nos quando viu Marido.
Primeira frase após o beijinho e o xi-coração: Já viste onde é que eu estou? Não tive resposta. Só sorri e fiz uma festa na sua cara. Sentá-mo-nos a uma mesa. Olhei à volta. Na sala estavam três senhoras sentadas. Uma dormia, encaixada em almofadas. Outra, de boca escancarada, olhos muito abertos e fixos, de vez em quando soltava uns sons altos, agudos, que o incomodavam. Talvez fosse isso ou não mas deu-me a impressão de querer meter conversa... a outra, estava ao lado desta, pareceu-me ser a sua companhia e companheira. Foi a que me pareceu estar mais viva. Não há palavras para descrever o que senti enquanto lá estivemos, apenas uma meia horita, mas senti como se fosse uma hora bem grande, a tentar disfarçar, a contar coisas. Punha nariz, tirava nariz, distraí-o e distrai-me conforme soube e pude. Clicámos o momento com o telélé. Depois, acabou-se o repertório. Antes das queixas começarem, mostrámos sinais de vir embora. «Já vão...» disse, com a sua tradicional expressão triste. É sempre pouco o tempo para quem recebe visitas. Despedi-mo-nos. Voltaremos um dia destes, ficou a promessa, entretanto vamos falando pelo telefone.
Enquanto descíamos, eu vinha muda. Guardei o nariz na mala. Pensei que os outros companheiros estariam decerto no mesmo lugar e com as mesmas expressões de um grande vazio no olhar. Não adiantava saudá-los com a voz. Mas como não conseguiria passar por eles sem os ver, que tal um adeus com a mão e um sorriso? Vi três bracitos erguerem-se e as mãos esticarem-se em sinal de resposta. Para eles, redobrei o sorriso e abanei mais a mão, num adeus que eles reconheceram. Mas não retribuíram sorrisos.
É a vida! É o nosso futuro, se quisermos viver muito tempo, para lá do nosso tempo.
Será?

Uma volta a pé e conbersa com bês.


Já almoçaram? Bão dar uma bolta? - Perguntou Mateus quando me viu à porta a admirar as camélias.
- Vamos, respondi.
- Eu também bou com «bocês». Preciso de andar também.
.
Cada um com o seu animal de companhia, o dele solto, a minha presa à trela. A diferença entre a liberdade e a liberdade...
Mateus está muito melhor de saúde, graças ao nosso SNS.

Chegámos aos tanques. Fim da linha. Daqui não passamos. Já não tenho pernas, ó!

Boa caminhada. Boa conversa. Que tarde tão agradável.
Parar e olhar esta água, imprópria para consumo mas própria para regas e para todo o resto, a desperdiçar-se calhaus abaixo, dá dó.
Em casa de cada um de nós, a água para beber, para lavagens da casa, para o banho, para a sanita, para regas das plantas, é a potável, a do contador, a que se paga cara no total da factura, mas muito barata em cada metro cúbico gasto.
Algo se passa de errado na nossa maneira de entender as coisas.


Foi arejar e perdeu-se.

Saíram da capoeira porque são do campo. Uma delas, a esperta, aventurou-se em campo alheio, pata aqui pata acolá, bica aqui, bica ali. Uma trabalheira para a dona. Dona da galinha. Cisca aqui, depenica ali... ai as nabiças!!!

Chô! Chô! grita Laura atrás. E a pita a correr para o sítio errado. Saltou para as silvas, saiu de lá, enganou-se no caminho e eu à espera.

A desmiolada lá encontrou a estrada, cansada e não depenicou nadinha, que e dona não a deixou.

E juntou-se ao seu galo-marido e consortes.

Fim.

Atrasadas no tempo, mas com estória




Não são imagens de Inverno, sãos imagens que cliquei e lembro de uma tarde, nas últimas férias de Verão na Serra da Lousã. Encontrei-as recentemente. Contam um instante de um fim de tarde de 14 de Setembro, de 2010.
Estava eu refastelada na espreguiçadeira no pátio lá do meu sítio, a olhar o céu e a limpar neurónios, apenas preocupada em respirar, quando fui despertada por um aroma a coisa queimada. Abertos os olhos a modos de ver, mas não vi nenhum fumo que correspondesse àquele aroma, bastante intenso e meu conhecido.
Sentei-me. Havia fogo por ali. Passei o olhar à minha volta, e nada. Nem do lado da Ribeira, nem da Pena, nem dos Povorais, nem do Vale Torto, nem da Póvoa. Era mais longe que a mata estava a arder.
Descansei-me de novo, pois, que havia eu de fazer?! Uns minutos e um som, longínquo, meu conhecido de outros écrans. Havia mesmo um incêndio e a ajuda vinha a caminho. Lá vinha ele com o balde dependurado e cheio e seguia, em direcção ao Nascente. Cliquei-o até ele passar por cima de mim. A noite foi caindo. Fui tratar do jantar.
Nessa noite, nada de céu vermelho nem aroma a coisa queimada. Ainda bem, que aquela serra tem estórias que cheguem de grandes incêndios. De vidas perdidas. De património diminuído a uns, aumentado a outros...
Recordo e estou a sorrir. «Ulha um pricópio» era a frase ouvida noutros anos, de braços estendidos e dedos esticados. Coitado do pericópio, feio mesmo e mais lento, voava mais baixo e a tonalidade era escura. O balde dependurado nem tinha onde encher. Outros tempos em que não se esperava ajuda do ar, nem havia telefones nas casas, quanto mais telélés. Mas se fosse nas redondezas, perto dos bocados de cada um, a malta ia de enxada ao ombro e nas mãos ramos de eucalipto e sacas de serapilheira, a pé ou de boleia. Não podia era o fogo avançar.
Hoje ouve-se é o «éli, anda aí fogo» e esperam. Na maior parte das vezes esperam também que outro alguém telefone. «Então achas que eles já não sabem que há fogo!!!». É. Sou de Lisboa. E tenho um feito desgraçado de não esperar e avançar, quando é preciso.
Continuam os incêndios. Ano passado foi mais para Norte. Mas não tem comparação. Os meios dispostos pelo estado ao serviço da prevenção e actuação sobre os incêndios, pelo menos lá no meu sítio e arredores, têm sido eficazes.
Ficam os clics.

Falta de prática dá burrice

Eu sei fazer! Há anos que não pegava em lãs e agulhas, mas eu sabia fazer. A vontade de voltar a fazer coisinhas de tia é que me levou nesta saga. Fui de propósito à rua. Comprei a lã «especial» na casa de lãs na Grão Vasco, tinha agulhas de outras guerras e depois busquei na internet barretinhos para recem-nascido. Para tapar a cabecinha do Rafael, estava tanto frio! E comecei, cheia de ganas. Quase a chegar ao fim, já estava na segunda orelha, cliquei o trabalho e tudo. Depois, antes de cozer as orelhas, peguei, olhei, virei, imaginei-o colocado. Pareceu-me grande para uma cabecinha tão pequena como a dele. Ora bolas! Quase, quase pronto, não é que desmanchei tudo? E desisti de recomeçar. Para o ano, torno a tentar, pensei quando arrecadei a lã e as agulhas.
Vi hoje a foto. Nem me lembrava mais desta estória. Para meu castigo pela burrice, vou deixá-la aqui. Já que os putos têm tendência para crescer... porque não esperei pelo ano que vem em vez de desmanchar?

Surpresa muito agradável


Encontravamo-nos na loja de animais em Benfica, a Fish Planet, a adquirir umas coisinhas para a nossa «criação». Desta vez era para o canário. Um pouco de conversa que os pequenos da loja são profissionais simpatiquíssimos e surpresa! Tal não foi o nosso espanto um verdinho de asas abertas, muito simpático, voou do ombro do dono (na primeira foto situado à esquerda) para o ombro de Marido. Tirei o telélé da mala e perguntei se podia clicá-lo. Claro que sim! A seguir, no meio daquela alegria toda que eu sentia, parecia uma miúda, perguntei se podia estender-lhe o dedo, não fosse ele morder, mas nem esperei pela resposta. Ele agarrou-o com o bico como uma pinça cuidadosa e as suas patinhas frias pularam do ombro do Marido para a minha mão, começando logo a trepar pelo meu braço. Passei o telélé e Marido que clicou esta lindeza no meu ombro. Repetia «abaixo acima» enquanto percorria o meu pescoço. E pena minha, voou para outro ombro. Dava beijinhos à dona e a seguir «abaixo acima». Que empolgação. Tinha uma cor de penas linda, um verde abacate, aveludado... O meu primeiro contacto com um asinhas da família dos papagaios. Como se chamava? Abaixo Acima, claro.

Boa sorte para ti, Abaixo Acima. E toma tento nos teus voos, não abuses da tua sorte de seres lindo e seres simpático.

CAMELOS TAMBÉM CHORAM

«Eu tinha lido que, lá na Índia, elefantes olhando o crepúsculo, às vezes, choram. Mas agora está aí esse filme “Camelos também choram”. A gente sabe que porcos e cabritos quando estão sendo mortos soltam gemidos e berros dilacerantes. Mas quem mata galinha no interior nunca relatou ter visto lágrimas nos olhos delas. Contudo, esse filme feito sobre uma comunidade de pastores de ovelhas e camelos, lá na Mongólia, mostra que os camelos choram, mas choram não diante da morte, mas em certa circunstância que faria chorar qualquer ser humano. E na plateia, eu vi, os não camelos também choravam.
Para nós, tão afastados da natureza, olhando a dureza do asfalto e a indiferença dos muros e vitrinas; para nós que perdemos o diálogo com plantas e animais, e, por consequência, conosco mesmos, testemunhar com aquela bela família de mongóis o nascimento de um filhote de camelo e sua relação com a mãe é uma forma de reencontrar a nossa própria e destroçada humanidade.
É isto: eles vivem num deserto.Terra árida, pedregosa. Eles, dentro daquelas casas redondas de lona e madeira, que podem ser montadas e desmontadas. Lá fora um vento permanente ou o assombro do silêncio e da escuridão. E as ovelhas e carneiros ali em torno, pontuando a paisagem e sendo a fonte de vida dos humanos.
Sucede, então, que a rotina é quebrada com o parto difícil de um camelinho. Por isto, a mãe camela o rejeita. O filho ali, branquinho, mal se sustentando sobre as pernas, querendo mamar e ela fugindo, dando patadas e indo acariciar outro filhote, enquanto o rejeitado geme e segue inutilmente a mãe na seca paisagem.
A família mongol e vizinhos tentam forçar a mãe camela a alimentar o filho. Em vão. Só há uma solução, diz alguém da família, mandar chamar o músico. Ao ouvir isto estremeci como se me preparasse para testemunhar um milagre. E o milagre começou musicalmente a acontecer.
Dois meninos montam agilmente seus camelos e vão a uma vila próxima chamar o músico. É uma vila pobre, mas já com coisas da modernidade, motos, televisão, e, na escola de música, dentro daquele deserto, jovens tocam instrumentos e dançam, como se a arte brotasse lindamente das pedras.
O professor de música, como se fosse um médico de aldeia chamado para uma emergência, viaja com seu instrumento de arco e cordas para tentar resolver a questão da rejeição materna. Chega. E ali no descampado, primeiro coloca o instrumento com uma bela fita azul sobre o dorso da mãe camela. A família mongol assiste à cena. Um vento suave começa a tanger as cordas do instrumento. A natureza por si mesma harpeja sua harmônica sabedoria. A camela percebe. Todos os camelos percebem uma música reordenando suavemente os sentidos. Erguem a cabeça, aguçam os ouvidos, e esperam.
A seguir, o músico retoma seu instrumento e começa a tocá-lo, enquanto a dona da camela afaga o animal e canta. E enquanto cordas e voz soam, a mãe camela começa a acolher o filhote, empurrando-o docemente para suas tetas. E o filhote antes rejeitado e infeliz, vem e mama, mama, mama desesperadamente feliz. E enquanto ele mama e a música continua, a câmara mostra em primeiro plano que lágrimas desbordam umas após outras dos olhos da mãe camela, dando sinais de que a natureza se reencontrou a si mesma, a rejeição foi superada, o afeto reuniu num todo amoroso os apartados elementos.
Nós, humanos, na plateia, olhamos aquilo estarrecidos. Maravilhados. Os mongóis na cena constatam apenas mais um exercício de sua milenar sabedoria. E nós que perdemos o contato com o micro e o macrocosmos ficamos bestificados com nossa ignorância de coisas tão simples e essenciais.
Bem que os antigos falavam da terapêutica musical. Casos de instrumentos que abrandavam a fúria, curavam a surdez, a hipocondria e saravam até a mania de perseguição.
Bem que o pensamento místico hindu dizia que a vida se consubstancia no universo com o primeiro som audível - um ré bemol - e que a palavra só surgiria mais tarde.
Bem que os pitagóricos, na Grécia, sustentavam que o universo era uma partitura musical, que o intervalo musical entre a Terra e a Lua era de um tom e que o cosmos era regido pela harmonia das esferas.
Os primitivos na Mongólia sabem disto. Os camelos também. Mas nós, os pós-modernos cultivamos a rejeição, a ruptura e o ruído.
Haja professor de música para consertar isto.»
Texto de Affonso Romano de Sant’Anna

Recebi o texto e o vídeo via e-mail, de Guida Pinto, a minha homónima-virtual. Pelo conteúdo, que me comoveu, penso que o Mundo ainda tem salvação.
Por pensar assim, por estórias e imagens como estas, que despertam em nós, tão sabedores, sentimentos que nunca chegámos a vivenciar, deixo aqui neste meu espaço, com Votos de FELIZ ANO NOVO.

3º dia de férias na Serra da Lousã



Amanheceu sem nuvens no dia 3. Apresentou-se um pouco opaco. O frio, esse não já não era surpresa. Ála passear. De carro pois, porque me é de todo impossível caminhar e respirar na rua em temperaturas de 2 ou 3 graus Centígrados. Coisas minhas, físicas. Nada a fazer. Ir onde? Sempre o mesmo dilema. Ali estava-se tão bem, mas dar a voltinha a pé com aquela temperatura, nem só com os olhos de fora. Nem pensar. E se fossemos até à Cabreira?! sugeri. Há lá um restaurante com um nome muito giro, a Tranca da Barriga ...
Depois de imaginar o percurso a seguir, até seria um passeio diferente porque nunca tinhamos subido, de Góis,a a EM 543 para a Nacional 2. Descer, sim, muitas vezes. E lá fomos. Com Bi atrás, deitadinha na sua nova cama comprada na «Loja dos Chineses» em Góis. A propósito, eles são muito atenciosos, sorridentes e até criaram um posto de trabalho para uma portuguesa. Por causa de traduzir a língua? Talvez não, agora, que a chinesinha fala bem o português e nós, por defeito ou virtude, fazemos todos os possíveis para os entendermos, a eles ou a quaisquer outros estrangeiros que estejam cá, a trabalhar ou em férias.
Ora bem. Estando em Góis, foi junto aos Bombeiros que iniciámos a subida, a caminho do almoço. A Estrada Municipal (EM ) 543 e levou-nos lá, mas sinuosamente. Passámos Cortecega. Muitas curvas depois, a Cabreira. A cada curva, uma paisagem diferente. Eu fui clicando, dentro do carro em andamento e de janela aberta, com Marido a refilar por causa do frio, que era glaciar para nós, ainda habituados a 4 Estações. Mas foi-me impossível não o fazer. Estar sentada a ver toda aquela paisagem belíssima a desafiar-me e não a clicar e trazer para casa, era um desperdício. Eu e os meus clics, para poder mostrar aquele cantinho de Portugal, na Beira Interior, um dos mais pobres de Portugal.
Cabreira olhada pela 1ª vez. O Restaurante? Placa não havia, mas houve uma senhora loura de cabelo encaracolado simpatiquíssima que nos indicou o melhor caminho. Entrámos. Boa tarde! Sentimos o natural acolhimento daquela zona. Subimos ao 1º andar. Sentámo-nos. Apareceu Álvaro Martins. Trocámos conhecimentos e «facebooks». Que comer? Feijoada, o prato do dia. Sem ser carne? Polvo acabado de cozer para uma saladinha ou se quiser, com batata e legumes. Não é preciso. Traga uma dose de feijoada e uma saladinha de polvo. Vinho da casa, azeitonas temperadas, um queijinho de cabra. Melhor? Não. Aprovados. Sobremesa, arroz de mel. Tivemos de experimentar. Com limão e pau de canela. Ainda morno. Um pouco mais de cozedura do grão e estaria irrepreensível. Café bom. Preço óptimo. Desejamos à nova gerência da Tranca na Barriga, na pessoa de Álvaro Martins, muita sorte. Foi um prazer lá ter ido.
Depois restava a viagem de regresso. Por cima para a Nacional 2? Ou descer a Góis? Por cima, que andaram carros da Câmara a meter sal nas estradas. A tarde caía. O Penedo estava quase opaco.
Vou preparar o próximo filme.

História de Portugal muito condensada

Ler não é tempo perdido! Quem diz que estudar história demora tempo, engana-se. Assim sendo, leiam esta preciosidade escrita não sei por quem! Está simplesmente genial. Lembrei-me dos meus amigos monarquicos e por eles, que calculo sejam inteligentes, vou colocar aqui. Irão decerto sorrir, porque sorrir faz falta nos tempos de hoje e apreciar esta maneira educada e informada de brincar com a nossa História. Recebi, via e-mail, de P. Santa Cruz. Obrigada.
.....*.....

«Tudo começou com um tal Henriques que não se dava bem com a mãe. E acabou por se vingar na pandilha de mauritanos que vivia do outro lado do Tejo. Para piorar ainda mais as coisas, decidiu casar com uma espanhola qualquer e não teve muito tempo para lhe desfrutar do salero porque a tipa apanhou uma camada de peste negra e morreu. Pouco tempo depois, o fulano, que por acaso era rei, bateu também as botas e foi desta para melhor. Para a coisa não ficar completamente entregue à bicharada, apareceu um tal João que, ajudado por um amigo de longa data que era afoito para a porrada, conseguiu pôr os espanhóis a enformar pão e ainda arranjou uns trocos para comprar uns barcos ao filho que era dado aos desportos náuticos. De tal maneira que decidiu pôr os barcos a render e inaugurou o primeiro cruzeiro marítimo entre Lisboa e o Japão com escalas no Funchal, Salvador, Luanda, Lourenço Marques, Ormuz, Calecute, Malaca, Timor e Macau.

Quando a coisa deu para o torto, ficou nas lonas só com um pacote de pimenta para recordação e resolveu ir afogar as mágoas, provocando a malta de Alcácer-Quibir para uma cena de estalo. Felizmente, tinha um primo, o Filipe, que não se importou de tomar conta do estaminé até chegar outro João que enriqueceu com o pilim que uma tia lhe mandava do Brasil e acabou por gastar tudo em conventos e aquedutos.

Com conventos a mais e dinheiro menos, as coisas lá se iam aguentando até começar tudo a abanar numa manhã de Novembro. Muita coisa se partiu. Mas sem gravidade porque, passado pouco tempo, já estava tudo arranjado outra vez, graças a um mânfio chamado Sebastião que tinha jeito para o bricolage e não era mau tipo apesar das perucas um bocado amaricadas.

Foi por essa altura que o Napoleão bateu à porta a perguntar se podia ficar com isto. Levou com os pés dos ingleses que queriam o mesmo. Outro João tinha dois filhos e queria pôr o Pedro a brincar com o irmão mais novo, o Miguel, mas este teve uma crise de ciúmes e tratou de armar confusão que só acabou quando levou um valente puxão de orelhas do mano que já ia a caminho do Brasil para tratar de uns negócios.

A malta começou a votar mas as coisas não melhoraram grande coisa. E foi por isso que um Carlos anafado levou um tiro nos coiratos quando passeava de carroça pelo Terreiro do Paço.
O pessoal assustou-se com o barulho, escondeu-se num buraco e vieram os republicanos que meteram isto numa guerra onde ninguém nos queria.

Na Flandres levámos tiros que fartou disparados por alemães. Ao intervalo, já perdíamos por muitos mas o desafio não chegou ao fim porque uma tipa vestida de branco apareceu a flutuar por cima de uma azinheira e três pastores deram primeiro em doidos, depois em mortos e mais tarde em beatos.

Se não fosse por um velhote das Beiras, a confusão tinha continuado mas, felizmente, não continuou. Angola continuava a ser nossa mesmo que andassem para aí a espalhar boatos.


Comunistas dum camandro! Tanto insistiram que o velhote se mandou do cadeirão abaixo e houve rebaldaria tamanha que foi preciso pôr um chaimite e um molho cravos em cima do assunto.

Depois parece que houve um Mário qualquer que assinou um papel que nos pôs na Europa e ainda teve tempo para transformar uma lixeira numa exposição mundial e mamar uma seca da Grécia na final do futebol.

E Cavaco ? O Cavaco foi com o Pai Natal e o palhaço no comboio ao circo...»