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"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".*



«Diz alguém que a despedida / Nada custa ao coração /Quem tal diz que se despeça / E verá se custa ou não.»**

Custa, está a custar. 
Um peixinho que nos fitava, que nos fitava e prestava atenção aos nossos movimentos, que reagia a eles ... não era um vulgar peixinho de aquário, foi mais. Foi um animal de companhia. 
Chegas-te a ir de férias para a Serra, connosco. Nunca tinham visto uma coisinha tão linda.
Man, foi «alguém» que hoje deixou um espaço vazio. 
Vou ter muitas saudades tuas.


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* Antoine de Saint-Exupéry - «Le petit prince»
** Joaquina Tavares Varandas - «Versos feitos ao serão»

A Ribeira Cimeira está mais pobre


É costume ser ao contrário. Mas foi assim, desta vez. Do Facebook, trouxe:

‎Para "Ana Paula Bandeira. Foi tão pouco o tempo que tive para continuar a provar do seu Licor de figo. Sabíamos da existência uma da outra, mas nunca nos chegámos. Foi numa tarde, talvez de um Agosto, no Esporão, à porta do restaurante do João, através da minha cunhada Alice Lima Pinto, que nos apresentámos e aos seus filhos. O seu sorriso aberto contagiou-nos. Depois foi a nossa ida à Ribeira, a duas das vossas «feiras». E foi aqui, no FB, por pouco tempo. Soube agora, pela minha prima Prima Laura, da sua ida. Já descansa, depois de uma grande luta contra um mal terrível que a venceu por fim. Estou sem palavras, embora não surpreendida. 

Lembrei-me de um livro de Fynn e dedico-lhe o seu título: «Senhor Deus, esta é a Ana». 
No final da estória há o poema «Quando eu morrer» por Ana, que diz assim:

Quando eu morrer
morrerei por mim própria
ninguém o fará por mim.
Quando eu estiver pronta
Direi
«Fynn, põe-me de pé»
e olharei
e rirei muito contente
e quando cair
é porque morri.
 Até sempre Ana Paula Bandeira.

José Bandeira, Diana Bandeira, João Bandeira, os nossos pêsames."

Encontrei a foto da postagem de ontem

O amigo ido ontem, Manuel Oliveira, é o 2º a contar da esquerda. À sua frente, a mulher, Geraldina, num clic que registei em Setembro de 1998, por altura de um lanche levado pelos meus primos Afonso e Palmira, a modos de despedida de férias, a um cantinho da Serra da Lousã. Contei a estória aí.

Despedida

Com o passar dos anos e a idade aumentando, vamo-nos com alguma frequência despedindo de amigos e conhecidos.
Soube agora que o Sr. Manuel Oliveira, casado com Geraldina (que é irmã da minha prima Palmira, nascidas nos Ameeiros), faleceu.
O Ti' Manel era natural da Roda Fundeira e criado em Vale d'Abilheira, não da Aguieira, como por engano escrevi. Vamos a ver se acertei desta vez.
Conheci-o na Póvoa da Cerdeira, quando em convívio nos encontrámos. Partilhámos um pic-nic (o último do senhor meu Pai), alguns baptizados, um casamento e algumas despedidas.
Tocava muito bem concertina e acordeão. Dele fica a recordação de um bom homem, simpático, sempre com boas palavras e com quem convivíamos nas festas dos «Canecos». Sinto muito que tivesse ido. Ficámos mais pobres com a sua ausência.
À mulher, Geraldina, e a toda a sua família, os nossos sentidos pêsames.
Até.

PS: Tenho foto e se calhar algum filme que vou procurar. Actualizarei este post mais adiante.

Até sempre!

António da Natália, Irmão de Prima Amada e Cunhado de Prima Ti'Júlia, faleceu hoje com 88 anos de idade.
Lembro-me desde sempre deste primo, direito da minha Avó Olinda. O Ti'António, magro, moreno de olhos negros, sempre teve uma cara bonita, um sorriso malandro e chamava-me de Guidinha. Desde a minha juventude, nos meses de férias, eram as suas duas mais velhas a pedirem-me para ir ter com ele, para lhe pedir para as deixar ir aos bailaricos que se faziam na Cerdeira, antigamente. Havia muita gente nova a residir lá. Éramos todos «primos e primas». Ele não deixava, à primeira. Nem à segunda. Tínhamos, eu à frente, de andar atrás dele «deixe, deixe ...», até que deixava. E lá íamos as três ter com os outros. Sem luz eléctrica, os sobrados dos tios eram o piso para dançarmos, ao toque da concertina ou da guitarra, com vozes lindas que cantavam quadras soltas e ao desafio, iluminados por candeeiros a petróleo ou petromaxes, coisa mais recente no tempo que já lá vai. «Olá Guidinha!» (consigo lembrar a sua voz) com um forte aperto de mão e dois beijinhos. Já restam poucos que me tratam assim, de Guidinha.
Criaram uma grande família, de muitas filhas e só um filho, que lhe deram netos e bisnetos. E que agora cuidavam dele. É minha convicção que os velhotes da Cerdeira, na sua grande maioria, tiveram sorte com os filhos que criaram.

No passado domingo de Páscoa, na Cerdeira, subi um lance de escadas e demos um pulo a casa de sua filha, Maria Aurora. Não era habitual essa visita... E eles lá estavam. Ele não me disse nada, apenas me fixava com uns olhinhos escuros, como se fosse uma criança a tentar reconhecer-me. Sentado, aconchegado, com a família a tratá-lo, estava bonito. Sinto agora que foi a modos que uma despedida, porque adivinhar não é para os comuns mortais.
Tal como de outros cerdeirenses já idos, vou ter saudades suas primo Ti'António, porque nunca teve uma má palavra ou mostrou mau modo para comigo.
A seus filhos Maria Aurora, Aida, Arminda, Ivone, Carlos e Isabel, genros, nora e aos netos, deixo aqui os nossos sentidos pêsames.
Até Ti'António!


Não está!

Soube mesmo agora da sua partida primo Horácio Simões.
Tinha 72 anos.
Este clic faz um ano em Setembro. Aconteceu num almoço na casa de convívio da Cerdeira. Lembro-me que, apesar da vil doença que o assolou, esteve bem e até cantou.
Vou sentir saudades suas.
Os meus pêsames para Aida e Anabela, as mulheres da sua vida.
Deixo-lhe este poema de Mário Quintana, à laia de homenagem.

INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
«Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!»

Desejo que tenha encontrado a luz da estrela.
Até Primo Horácio.
Li José Saramago. Era uma homem atento ao mundo, esclarecido, na esquerda da política. Veio de baixo, subiu e atingiu o topo da sua vida de escritor ao lhe ser atribuído o 1º Prémio Nobel da Literatura Portuguesa. O motivo para essa atribuição foi «aquele que, com parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia continuamente nos permite mais uma vez apreender uma realidade indefinível».
Foi um escritor duma escrita muito particular, nada fácil para mim. Não era um escritor que eu levasse para férias. No entanto li «A Jangada de pedra» e embora não estejamos à deriva e sós, continuamos à procura de um rumo, apesar de estarmos parcialmente integrados em alguma coisa europeia.
Posso afirmar que não consegui ultrapassar a metade do «Memorial do Convento». E li e reli cada página, a ver se me entrosava na estória.
Li «Ensaio sobre a cegueira», fiel relato duma sociedade que não quer ver e é socialmente injusta.
Já com Caim, senti-me não ofendida. Dei comigo a sorrir e a rir, muitas vezes, durante a leitura de alguns trechos. Talvez por eu não me sentir muito católica ou religiosa, compreendo o que quis dizer quando escreveu «A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele». E não é verdade?
Ficou-me na ideia que José Saramago foi um senhor muito dono do seu nariz, um criador de metáforas sobre o homem e o seu destino. Ah! e também «zangado» com o seu País natal. Não o censuro por isso, muitos de nós estamos zangados mas continuamos por cá.
Referi o seu «mau feitio», porque encontrei um trecho, retirado da Internet, que suporta o meu parecer:

"A Língua é minha, o sotaque é seu". Com esta acutilante e irónica frase respondeu Saramago, numa conferência recentemente realizada no Brasil, a um jovem brasileiro que se manifestou algo confuso dado que não entendia a pronúncia do autor de Memorial do Convento. Serve este simples exemplo para demonstrar que Saramago não se pode identificar com a simplicidade existencial, muito menos com a utilização da nossa Língua, na qual encetou, não sem polémica, caminhos de subversão na escrita aliados à subversão temática.

Até!

Despedida a Amélia

Amélia, nascida nas Cabeçadas (não nos Ameeiros como referi), filha de Ti Manuel de alcunha o Foguete e de Ti Maria Emília, irmã de Victor e meia irmã de Casimiro, de Amilcar e de Matilde, mulher de Acácio, mãe de António, faleceu hoje.

Amélia era uma mulher de boa índole, belíssima cantadeira e dona de uma voz cristalina. Durante alguns meses de Agosto, alegrou as nossas férias aos serões, na Póvoa da Cerdeira, em casa de seu irmão Amilcar. É essa a imagem que me fica na lembrança. De Amélia a cantar e do som da sua voz, com a nora a tocar acordeão e a família e amigos envolvidos nas cantigas, todos juntos e em boa amizade.
Essa foto de foto, portanto de baixa qualidade, mas que por ser a única que tenho deixo aqui colocada, conta uma estória. Numa bela tarde de um mês de Agosto em férias na terra, fomos até à «Piscina de Alváres». Da esquerda para a direita reconheço: Marido, jovem que não lembro o nome, Tó, Amélia (a espreitar), nora de Amélia (a tocadora de acordeão), mais dois jovens que não lembro os nomes e por trás, de chapéu na cabeça, Acácio, marido de Amélia. Euzinha, cliquei.
Este grupo de 9 pessoas saíram da Póvoa em dois carros e foram a banhos. Penso e é minha convicção que nunca mais voltámos à piscina de Alváres. A água da Ribeira do Sinhel era muito gelada ...
Ficam as boas lembranças.
Até sempre Amélia.

Mais um Adeus


Faleceu e vai descer à terra, amanhã, em Góis, o Ti Alberto Bandeira, nascido há quase 89 anos na Cerdeira. Foi marido da senhora professora primária que leccionou toda a sua vida na Escola Primária da Cerdeira de Góis e já falecida, também, há muitos anos.
O Ti Alberto será sempre uma referência na minha vida. Dono de uma mercearia e de uma taberna, ligadas por um corredor interior, era lá que em férias nos abastecíamos de mercearia. Também era o único sítio a ter telefone, daqueles com caixa acoplada onde se encaixava uma moeda de cinco tostões e se podia falar durante algum tempo. Ficou-me o cheiro do açúcar amarelo no reservatório com tampa em madeira, da cor dos rebuçados nos frascos a dois 1 tostão, dos pacotes de bolacha Maria e de bolacha torrada, do azeite ao litro, das carcaças e ao lado, do vinho tinto a copo ao balcão ou ao litro, das gasosas e das laranjadas, do bocadito de presunto ou das sardinhas fritas em cima do balcão para os homens petiscarem, da serradura espalhada pelo chão depois de varrido, sei lá que mais poderei ir buscar à minha memória para retratar os momentos vividos na ida ao Ti Alberto durante tantos anos, em férias. Também se jogava à sueca. Cá fora no pátio em terra, os homens jogavam à malha e conversavam. Houve uns anos, que o Ti Alberto se aventurou a assar frangos, mediante encomenda. Que belos frangos nós petiscamos e que belos tempos esses, meu amigo ido.
Há mais de 20 anos, que o Ti Alberto foi visita da nossa casa, no tempo do senhor meu Pai. Era uma pessoa respeitadora que gostava de brincar e também muito prestável. Depois de enviuvar, já não passava tanto tempo na sua taberna, não havia freguesia e sentia-se só. De vez em quando aparecia. Descia ao fundo do lugar e fazia gosto em levar-nos uma travessa de ameixas, roxas e amarelas, grandes, doces, sumarentas, que ele cuidava no seu quintal. Foi convidado a almoçar connosco algumas vezes e até a participar nas nossas festas de aniversários. Sabia fazer de tudo. E dava uma mão, mesmo sem lhe pedirem. O senhor meu Pai foi algumas vezes agraciado com a ajuda dele, solidária e de alguma sabedoria, na construção de um muro, numa caiadela de outro, no enxertos das videiras ... O senhor meu Pai que foi marujo de profissão e na sua reforma quis lançar-se noutras lides diferentes, bem vindas foram as outras mãos sabedoras de outras artes, como as mãos do Ti Alberto.
Vou ficar com muito boas recordações deste senhor nascido na Cerdeira de Góis. Fica a saudade. Os nossos pêsames Julinha, estendíveis a tua irmã e restante Família.

Até sempre.

PS: vou procurar uma foto para ilustrar esta despedida.
Já encontrei. Roubei à Marisa.

Bobby Charles versus os desconhecidos haitianos



Há três dias que me entram casa adentro imagens e notícias de mortes e desaparecidos, dado o drama que o povo Haitiano está a viver. Ilustres desconhecidos todos eles, povo, governantes, outros poderes institucionais. Não há nenhum haitiano que dê a cara pelo seu País, que o represente e fale ao mundo das necessidades que o assolam. Sem governo nem poder, estão a ser invadidos por homens de boa vontade, que aderem a causas humanitárias e que rapidamente se fazem presentes em locais sofredores. Levam o estrictamente necessário e representam o mundo civilizado. O receio de novas réplicas está presente. As imagens mostram um Povo, que se desloca sem parança. Não me é indiferente olhá-los, aos «vivos e a mexer» e questionar-me: Para onde irão aquelas pessoas, de onde vêm, porque passam cegos pelos seus semelhantes mortos, espalhados pelas ruas, pelas estradas, sem mesmo um pano a tapá-los e nada fazem. É um povo adormecido, com medo. Habituado à convivência com o terror das armas e com a miséria de tal modo vai passando e nada faz. Quando a noite cai, juntam-se sentados e esperam. Esperam ajuda. Outras vozes se fazem ouvir, como dadoras de imensas quantias de dólares e euros. Quem controla?

Hoje também foi notícia que Bobby Charles morreu hoje. Quem é este? Um Americano que chegou aos 71 anos de idade e que na sua juventude foi autor da letra «See You Later Alligator», interpretada pelos Bill Haley and his Comets. Esta chegou à 6ª posição nos charts americanos no ano de 1956. Cá também tocou nas rádio-telefonias portuguesas. Eu conheço-a e fui à procura dela no YouTube. Não conheço que mais este senhor terá feito.

A diferença entre este senhor e os outros milhares de ilustres desconhecidos haitianos, é que estes são anónimos mas Bobby, não. Por isso posso deixar aqui a despedida: see you latter Bobby Charles!

Como é despedir-mo-nos de um canário?


Há 10 anos a minha família de 7 sofreu uma perda irreparável. Há 10 anos que te fomos buscar e te apontámos de entre uma dezena de semelhantes numa gaiola enorme. Eras amarelo como os demais, talvez mais vivaz, por isso te adoptámos. Para fazeres companhia a alguém que ficou só, de repente. Para dizeres, a piar, que estavas ali e que precisavas que tomassem conta de ti. Em troca aprendeste a comunicar. Foste esperto, inteligente, cantor inigualável, uma presença alegre nas janelas da vida da nossa família. De ano a ano, em Agosto, vinhas de férias até minha casa. No mês seguinte, para outra casa, para que tomassem conta enquanto nós nos ausentávamos. Andavas de casa em casa, até as férias de Verão acabarem e cada um de nós regressar ao trabalho. Todos gostavam de ti e posso assegurar que os outros canários das redondezas te conheciam só pelo canto.
Hoje, a senhora minha Mãe deu contigo de patinhas para o ar. Ficámos muito tristes. Foste-te embora velhinho, cego de um olho e com problemas nas patinhas. A velhice é isso mesmo. A degradação. Viveste feliz a tua vida de canário, bem tratado, respeitado e querido. Chegou o teu fim. Dizemos-te obrigada por tudo o que nos ofereceste.
Até Xiquinho.