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Barroca, o local dos banhos tão perto de casa


Dia de visitar a «barroca». Aquela barroca de que falo com saudades dos molha pés.
A ponte sobrevive sobre as águas límpidas que ainda passam por baixo.


Impossível o molha pés.


Amuei. O acesso está aberto, mas às águas, não cheguei. 
Por invasão da natureza, incúria, desleixo humanos.


Até o moínho. Quantas sacas de milho não moeu...

«Se me saísse o totoloto», ai barroca, que limpeza te mandaria fazer.

A barroca da minha infância

A saudade que tenho da frescura destas águas doces e frias que brotam, um fio, por debaixo duma fraga lá mais acima, se alargam e se estreitam conforme o seu leito feito de pedras, fetos e outras verduras e que chegam aqui. É aqui, na «minha» barroca, que se essas água se expandem, ficam baixinhas. O seu fundo vai subindo de ano para ano, com um acumular de tudo o que as águas trazem e deixam aí depositadas. É um local esquecido. Não por mim. Vai ser bom mergulhar os pés descalços, nas tardes quentes de Verão que ainda estão para vir no próximo Setembro.

Para chegar ao calhau e me sentar - um calhau que rebolou do Penedo há muitos tempos atrás e por ali ganhou cama - sofro um pouco, fazem mossa, as pedras nos meus pés. Ai, ui, algum equilíbrio e sento-me. Sucesso! Olho à volta, aguço o ouvido. Marido na margem seca com Bi ao colo, que a menina não pode molhar-se ... som de águas e pouco mais. Verdes eucaliptos, e mais verdes silvas e moitas e moiteiros e fetos.

Estou ansiosa. Sempre vale a pena ir até lá. Sempre valeu a pena.
Pena mesmo é não ser limpa, aproveitada para todos e por todos...

Estou a 3 dias de mudar de sítio. Lisboa vai de novo encher-se de azáfama. Lá em cima, apenas os silêncios dos que lá moram, o ar respirável, a barroca, o Penedo e pouco mais. Ah! e as courgettes. Já me esquecia das minhas courgettes.

Posted by Picasa

Gente boa.

Há falta de baloiço, uma embaladora de sonos faz o mesmo efeito.
Quem não tem cão caça com gato.

A «minha» primeira bicicleta.

Gosto pela aventura na água gelada.

Sem medos, na barroca. Adorei conviver com este puto :).

Ai se me sair o totoloto!

Calor. Muito calor este fim de semana. Mas pelo menos, lá em cima, refrescamos ideias. Só as ideias, que o corpo padeceu um pouco. «Tenho de ir à barroca molhar os pés» pedi a marido. Mesmo sem caminhos, que a mata cobriu todos por já não serem calcados, ninguém por ali passa, lá consegui chegar ao lugar das banhocas da minha infância. Faz doer os pés a frescura e o fundo. A barroca está quase atolada de pedrinhas e calhaus, não há vontade humana de levar até lá uma máquina que escave o fundo e limpe à volta as silvas, os tojeiros e os fetos... os tempos mudaram e os gostos também. Estou sozinha nesta luta. Conto pelos dedos de uma mão os que pensam como eu.

Água de nascente, que desce por despenhadeiros, salta pedras, sulca a terra, cai em altura no Poço da Raposa, arrasta tudo em tempo de invernia, canta agora por entra as pedras, mais suavemente e deixa-se espraiar onde ainda pode. Já fez há muitos anos girar pás de um moinho que moía o milho, foi desviada e correu levadas a regar o plantado para o sustento das famílias de então.

Oferece-se, coitada, perto da ponte. Ainda convida a molhar pés. Os meus pelo menos, agradecem. Esta Barroca está mal tratada, mal aproveitada, esquecida mesmo. Eu não a esqueço, como poderia, se tenho momentos inesqueciveis gravados na minha mente. Continua a ser lar de girinos? Não vi. Peixinhos do rio também não vi. Nem alfaiates. Só uma borboleta de couve meia tonta aos zigue-zagues e uma libelinha azul que nem poisou e seguiu vereda abaixo talvez com destino na Ribeira.

A ponte velhinha está. Mantém-se inteira, bem estruturada. Para chegar até à água, saltei à direita para baixo, segui a levada agora seca de água, pisei verdes e o cheiro da hortelã perfumou o meu imaginário.

Depois de entrar descalça, com algum cuidado, naquele local fresquíssimo, ladeado de pinhal, eucaliptal e outras autóctones, procurei o calhau que há dois anos me serviu de assento. Com a Canon na mão, preparada para clicar a «vida» ali. Só vi mato, folhas de fetos, cascas de eucaliptos, material que foi arrastado pelo caudal no Inverno e que por ali ficou. Do meu assento, um calhau grande no meio da água, mais para lá, nada. Fiquei de pé, andei pisando o fundo, segurando o vestido que era comprido e mandando sorrisos, palavras soltas, gritando frases a Marido que me aguardava um pouco atrás, em sítio seco. Enquanto me regalei por cinco minutos a refrescar pés e tornozelos (dado que a altura dela este ano não cobria mais) naquela água gelada, Bi estava a olhar-me de orelhas arrebitadas, a ver se entendia o que eu gritava, ao colo de Marido. Sim que ela é «menina» de cidade e não entende nada de picos nem de pedrinhas a magoarem as almofadas rosadas das suas patas. Acredito que ela seria capaz de as molhar, por curiosidade e ainda por cima em água doce que decerto lamberia se estivesse no chão, a seguir-me os passos. Mas «paizinho» não deixou.

Que desperdício. Ai se me saísse o totoloto Barroca :)