Ai se me sair o totoloto!

Calor. Muito calor este fim de semana. Mas pelo menos, lá em cima, refrescamos ideias. Só as ideias, que o corpo padeceu um pouco. «Tenho de ir à barroca molhar os pés» pedi a marido. Mesmo sem caminhos, que a mata cobriu todos por já não serem calcados, ninguém por ali passa, lá consegui chegar ao lugar das banhocas da minha infância. Faz doer os pés a frescura e o fundo. A barroca está quase atolada de pedrinhas e calhaus, não há vontade humana de levar até lá uma máquina que escave o fundo e limpe à volta as silvas, os tojeiros e os fetos... os tempos mudaram e os gostos também. Estou sozinha nesta luta. Conto pelos dedos de uma mão os que pensam como eu.

Água de nascente, que desce por despenhadeiros, salta pedras, sulca a terra, cai em altura no Poço da Raposa, arrasta tudo em tempo de invernia, canta agora por entra as pedras, mais suavemente e deixa-se espraiar onde ainda pode. Já fez há muitos anos girar pás de um moinho que moía o milho, foi desviada e correu levadas a regar o plantado para o sustento das famílias de então.

Oferece-se, coitada, perto da ponte. Ainda convida a molhar pés. Os meus pelo menos, agradecem. Esta Barroca está mal tratada, mal aproveitada, esquecida mesmo. Eu não a esqueço, como poderia, se tenho momentos inesqueciveis gravados na minha mente. Continua a ser lar de girinos? Não vi. Peixinhos do rio também não vi. Nem alfaiates. Só uma borboleta de couve meia tonta aos zigue-zagues e uma libelinha azul que nem poisou e seguiu vereda abaixo talvez com destino na Ribeira.

A ponte velhinha está. Mantém-se inteira, bem estruturada. Para chegar até à água, saltei à direita para baixo, segui a levada agora seca de água, pisei verdes e o cheiro da hortelã perfumou o meu imaginário.

Depois de entrar descalça, com algum cuidado, naquele local fresquíssimo, ladeado de pinhal, eucaliptal e outras autóctones, procurei o calhau que há dois anos me serviu de assento. Com a Canon na mão, preparada para clicar a «vida» ali. Só vi mato, folhas de fetos, cascas de eucaliptos, material que foi arrastado pelo caudal no Inverno e que por ali ficou. Do meu assento, um calhau grande no meio da água, mais para lá, nada. Fiquei de pé, andei pisando o fundo, segurando o vestido que era comprido e mandando sorrisos, palavras soltas, gritando frases a Marido que me aguardava um pouco atrás, em sítio seco. Enquanto me regalei por cinco minutos a refrescar pés e tornozelos (dado que a altura dela este ano não cobria mais) naquela água gelada, Bi estava a olhar-me de orelhas arrebitadas, a ver se entendia o que eu gritava, ao colo de Marido. Sim que ela é «menina» de cidade e não entende nada de picos nem de pedrinhas a magoarem as almofadas rosadas das suas patas. Acredito que ela seria capaz de as molhar, por curiosidade e ainda por cima em água doce que decerto lamberia se estivesse no chão, a seguir-me os passos. Mas «paizinho» não deixou.

Que desperdício. Ai se me saísse o totoloto Barroca :)

2 comentários:

Tina disse...

Adoro ler os seus relatos!
Beijinhos

Guidinha Pinto disse...

Muito obrigada pelo carinho Tina.
Beijo.