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Casas vazias com estórias

Passagem para os serrados


Entrada para a casa antiga

Nesta área estava a manta sobre o mato...



Saí de casa, numa tarde muito quente deste último Setembro, de máquina pendurada ao pescoço. Vou para baixo ou subo? Cortei à esquerda, subi devagar a calçada íngreme de pedras brancas. Fui olhando as casas, algumas em ruínas, recordando quem lá viveu. Não andei muito e dei comigo aqui, neste local com estória, das minhas inúmeras passagens pela Cerdeira com a senhora minha Avó, mal começavam as férias de Verão. 
Está assim, com ar de abandono e de de ninguém por aqui passar há tempos, nem a caminho dos Serrados, agora por amanhar. 
Olhei à volta à procura de poiso, queria viajar no tempo. Resolvi ficar de pé, pois não estou só e não desejo de modo nenhum incomodar outras criaturas que sabemos gostam de aqui para sua casa. Espequei-me ao lado da figueira quase brava, que vem estendendo os seus ramos até às silvas que por sua vez já tentam entrar por baixo da porta encerrada. Casa adentro. Casa vazia de gente.
Dantes, lembro-me, esta casa era térrea, com as lojas para a rua e nas traseiras, ainda cá está, a  entrada. Um pé alto com pouca altura, assim permaneceu durante muitos anos. Até Ti'Águsta e Ti'António da quinta se irem ambos. É no sítio Pissarrinha. 
Puxei pela memória, fiz-me a miúda que fui a passar férias com a Avó Olinda, que gostava muito de se juntar a esta prima, a Ti'Águsta da quinta (era a da quinta por haver outra Águsta, a do Casimiro) para falarem, delas e dos outros. 
Lembro-me que se riam muito. Riam até às lágrimas. Dos temas, não, não me lembro. A este duo divertido, juntava-se por vezes a Ti Ana, uma mulher grande, mais redonda que a Avó Olinda, vestida de preto e com os cabelos brancos apanhados em carrapito. Não era prima, mas virava-se muito para estas bandas. Por vezes trazia a sobrinha Matilde, miúda da minha idade que hoje vive na Lousã e já é avó.
Há meio século atrás, não sei se alguém que me lê se lembra, colocavam mato nas ruas e à entrada das casas. Era uma maneira de manterem o piso seco e as casas menos sujas. É que depois, sempre passavam os bois e os rebanhos de cabras, largavam os seus «presentes» e era tudo reciclado para adubar as terras. Sorriu e penso mudámos assim tanto por aqui? Que o que se entende por saneamento básico, que é a atividade relacionada com o abastecimento de água potável, o manejo de água pluvial, a coleta e tratamento de esgotos, a limpeza urbana, o manejo de resíduos sólidos e o controle de pragas e qualquer tipo de agente patogénico, visando a saúde das comunidades, ainda hoje não se faz a sério. Existem por cada casa, as fossas, algumas séticas, outras encanadas para locais que nem vou escrever; a água das chuvas, leves ou intensas, desce as calçadas e arrasta os resíduos; o que sai das torneiras, é mal pago mas bem taxado, não engolido sem se ferver e há as fossas, que no querido mês de Agosto não aguentam o uso e derramam o seu conteúdo. Os lixos, apesar dos recipientes camarários, ainda salpicam os caminhos, deixados, mandados, despejados. De electricidade em casa, só há uma vintena de anos se usufrui. Cobertura de redes para viajar na Internet com o Magalhães :) ou o simples uso de telemóvel, népia. Em pleno Século XXI, no Portugal, país europeu aderente ao Euro. O nosso futuro está longe de ficar mais civilizado.
Mas andemos, na escritura da memória. Estava a recordar o mato fofo nas traseiras da casa, coberto com uma manta de trapo, sobre a qual nos sentávamos, já com o sol passado para poente da casa. Estava bem ali, depois do lanche, a olhar o céu, a brincar com caruma, com bichos de conta e com carreiros de formigas, às cinco pedrinhas (que me lembrei eu) porque era uma criança-neta com sua querida avó, era bem tratada, estava fresco e cheirava bem. 
Volto à casa e à sua dona, a modos de despedida. A porta sempre aberta quando eu dava a volta e aqui me têm. Lá de dentro, no escuro com cheiro de lenha a arder na cozinha, de broa e sardinha frita,  surgia uma mulher pequenina e franzina, bonita, com um lenço na cabeça, a limpar mãos ao avental e uma voz que ainda consigo lembrar, fina e arroucada da Ti'Águsta da quinta: «Ó minha querida, estás tão bonita hoje! Dá-me um beijinho...»
Lamento muito olhar para «isto». Foi uma casa de família - lá nasceram 5 raparigas e 1 rapaz, se não me falha a memória. A maioria multiplicou-se e procuraram outras moradas. Presentemente a casa da Ti 'Águsta da quinta é de quem a habita. É das silvas e de outras criaturas autóctones, não dos herdeiros, que não a habitam. Por isso deu-me vontade de contar esta estória, que eu protagonizei. Para deixar aqui.
O cheiro a figos e a amoras invadiu o meu atual espaço, trazido por uma aragem quente. Saudades delas, pensei, ao clicar as fotos. Muitas foram as horas que aqui me senti bem, eu, a única miúda guardada pelas três mulheres, que conversavam entre si e riam muito do que contavam. E que já se foram. Olinda, Augusta e Ana. Porque «quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana»*


Escrito em 30 e Setembro de 2011.


*Marguerite de Crayencour

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Noite tranquila



Há terras, sítios, lugares, no nosso Portugal, onde a noite é mesmo escura, onde os animais saem dos esconderijos e convivem connosco, noctívagos também, onde o silêncio tem sons.
Passou-se há uns dias, numa encosta de um dos montes da Serra da Lousã. Noite escura, já jantados, vivíamos os últimos momentos de umas curtas férias de apenas 5 dias. Desfrutávamos um pouco de um bem-vindo fresco que já não se aguentavam os 30 graus de temperatura diurna. Olhávamos a Estrada de Santiago e viajávamos. A olho nu. E marido «olha Marte. Olha a Estrela do Norte. Olha as Ursas». Se o senhor meu Pai ali estivesse, referiria mais algumas, ele que foi marinheiro e viajou num lindo Navio Veleiro de nome Sagres. Cada luz fixa, um sol. Cada luz treme-luzente, um planeta. Biliões e biliões, como referiu Carl Sagan.
E estávamos bem. 
Nisto, um som musical desviou-nos a atenção. Concertina a esta hora só pode ser o Carlos. Desviámos o olhar mas não o conseguíamos ver, só ouvir. Afinal, ele mora em frente, lá à frente, a uns metros de distância. Descemos à Terra. Ouvimos e acompanhei algumas cantigas (que eu também as conheço). Era a última noite. Vamos até lá? Fomos. Não sem antes cobrir-mos os braços com uma camisola, porque realmente tinha arrefecido bastante e mais, porque os que à noite se alimentam picando-nos, andam à solta e picam que se fartam.
Escura a noite, pela calçada fora, sem lanterna e com luar, uma centena de passos estávamos lá. Boa noite! dissemos. «Olha quem está a ouvir-me tocar», disse Carlos. «Entra e olha para o degrau», disse sem parar de tocar. Entrei e olhei o degrau. Um sapinho, tentando disfarçar a sua presença de encontro ao muro, na sombra da luz do candeeiro de rua. Não levava a máquina dos cliques, mas o telélé anda sempre comigo não vá ter a sorte de apanhar um risquinho na antena durante a deslocação e receber uma mensagem ou mesmo uma chamada telefónica. Com o telélé cliquei-o. Tive de o trazer comigo, como recordação, porque ainda há quem refira que os mata porque cospem para os nossos olhos...
Enquanto ouvíamos o reportório de Carlos, o sapinho sentiu-se incomodado e foi à vida dele. Segui-o com alguns cliques, poucos por causa do flash. Uma ternurinha que não virou príncipe, continuou na sua condição de sapo porque não o beijei, mas desejei-lhe Sorte.
Entretanto lá captei um som, sem imagem por falta de luz artificial embora a luz da Lua nos acompanhasse no seu quarto crescente, quase a esconder-se por detrás do Penedo. 
Parece que é assim: «Eu quero ir à minha terra / quero ouvir o cuco a cantar / quero ver as estrelas no céu / eu quero ver altinho o luar».
O sapinho, vai a seguir.
Boa noite!



O meu sítio seguro


O entardecer de um dia escaldante de Outubro de 2011.


O lusco-fusco de uma noite que se adivinha mais fresca.


De novo, um amanhecer quente.

Isto não é habitual.

E lá se foi o risquinho

Não adianta. Gasto o carregamento das «penes» e fico mais pobre. No meu cantinho lá em frente ao Penedo, não chega rede nem para o telélé, quanto mais para uma ligação à Internet. Nem com sapos, nem tmnês, nem satélite, nadica de nada. Computador neste lado da Serra da Lousã só serve para ir guardando fotos, escrever umas coisas e, vá lá, vá lá, há electricidade e água. É que não há clientes suficientes para os fornecedores deste tipo de serviço colocarem antenas. Não há jovens, não há Magalhães! ...
É um local para refazer neurónios, de silêncios de ouvir crescer as erva, mas também ouvir  badalos das cabras no monte, o ladrar dos cães, os cantar dos cucos e dos mochos, os sons das capoeiras e afins e lá de vez em quando, de uma ou outra concertina. 
Para quê a internet?


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Paula


Foto de J. Pinto, clicada do Penedo. A terra não tremeu por lá, o fogo não a lambeu. Deve estar tudo na «santa paz do senhor», como costumam dizer. 
Assim sendo, estamos de malas feitas para uma pequena estadia. 
Parece que o verão teima em ficar mais uns dias. 
Desejo muito não ter nenhuma notícia má, enquanto por lá permanecer. Não que não a espere. 
A natureza prega-nos partidas terríveis. Estamos entregues a nós próprios, recebendo da medicina o que ela tem para nos confortar o corpo, quando surge a doença. Mais nada. Milagres não os peço, porque para mim, acordar todas as manhãs é o milagre. Vou estando por aqui, alimentando-me de sorte e aceitando conscientemente o que me aparece. Falo comigo, aceito-me nas minhas incapacidades. Dou-me bem comigo mesma. Dou-me menos bem com outros, pelo que desejam. Por causa do que penso sobre a Vida  e do que espero dela, para mim.
Há doenças e doenças. Há estadios e os respectivos protocolos de tratamento. Incapacidades, as mais variadas. Há imensos avanços da medicina, tratamentos a oferecer. Mas só isso, ainda não chega.
Lamento muito quem tem de partir antes do seu tempo, por já não ter mais nada com que se defender. Uma parte da vida passada a lutar terrivelmente contra si mesma, para nada. Até que, como uma onda, foi invadida e iniciou a partida, para a derradeira viagem. Quem a ama, espera. Espera o milagre. Que milagre?!
O cancro desconcerta, faz sofrer, mata. Neste momento, eu desejo-lhe Paz, a Paz que sobrevem das longas lutas, mesmo que inglórias.

Prometo voltar. São só 5 dias.
Fiquem bem.

Andorinhas





Todos os anos, o mesmo ritual. Foram clicadas numa manhã cedo, por Marido. Eram menos de uma centena. Silenciosas, estas andorinhas dos beirais, migratórias, adivinham o frio, juntam-se em bandos e migram para locais mais quentes. 
Voltarão na próxima Primavera, para os mesmos ninhos. Dizem. 
Boa viagem queridas criaturinhas comedoras de insectos, donas de um belíssimo chilrear. Até para o ano.


Malhar o feijão




Fim de tarde. Ouvi um som. Fui à procura da origem, porque o conheço. Lá estava Laura. 
Bate. Junta tudo. Torna a bater, com força. Com uma força muito buscada, que a idade trás maleitas, mas tem de se fazer e faz-se. 
Vinga-te, atirei-lhe enquanto a clicava. É uma boa terapia! continuei. Estás zangada com alguém? Aproveita e faz as pazes. Dá-lhe com força que ele não se queixa. O feijão, claro. Nem respondeu. Teria ouvido? Ou entendido? Ou o estado de cansaço dolorido em que se encontrava, limitou o seu bom humor? Pensa em mim rapariga! Nada. Fiquei sem saber.
De joelho direito no chão, bate. Troca de joelho e bate. Senta-se. Não há posição correcta para o antigo «debulhar» do feijão já seco. Vai separando as cascas. Os feijões vão ficando no chão. Mais tarde, ainda tem que erguê-lo numa cesta, acima dos ombros, e soltá-lo lentamente para cima de um resguardo enquanto espera que uma aragem passe e leve os resquícios das cascas. Finalmente os feijões estão prontos para serem guardados. Quase apanhados um-a-um. Espero receber uma tigelinha deles.
Talvez para o próximo feriado, se lá for.



Assim não deixa saudades

Último pôr-do-sol das férias de Verão.

Pela beleza desta despedida, agradeci.

Pelo amanhecer da partida, agradeci também.
A viagem iria ser fresca ...

Barroca, o local dos banhos tão perto de casa


Dia de visitar a «barroca». Aquela barroca de que falo com saudades dos molha pés.
A ponte sobrevive sobre as águas límpidas que ainda passam por baixo.


Impossível o molha pés.


Amuei. O acesso está aberto, mas às águas, não cheguei. 
Por invasão da natureza, incúria, desleixo humanos.


Até o moínho. Quantas sacas de milho não moeu...

«Se me saísse o totoloto», ai barroca, que limpeza te mandaria fazer.

Sabem sempre a pouco, os dias de férias.


As férias acabaram. Há dois dias. Marido foi trabalhar. Voltou a rotina. 
Apeteceu-me vir até aqui, reviver e publicar, momentos bons que nos aconteceram.
O dia de hoje, lá em cima na Serra, deve estar como o da foto, quente e com céu azul, tal como aqui, em Lisboa. Já sinto saudades.
O chapéu está guardado mas as cadeiras estão vazias e expostas em frente ao meu Penedo. Sentei-me pouco nelas, reparo agora. Quando os dias são bem aproveitados, bem vividos, ficam na memória. E não conseguimos usufruir, o quanto queríamos, os bens materiais que vamos adquirindo, porque a reforma ainda vem longe e sem data marcada. Ficam, os bens espirituais. Enquanto a memória nos deixar voar, revive-mo-los.
Foram dias de passeios à Pena, Aigra Nova e Comareira. Arganil e Avô. Lousã. Barragem de Santa Luzia e Parque das Merendas da Oitava, Poços e Igreja de Santo António da Neve, com farnel atrás e boa companhia. 
Foram dias de visitas. À Marisa, à Olinda, a umas lojinhas. E a novos conhecimentos. 
A última semana, foi passada em descanso, com tardes à beira do Rio Ceira em Góis, sem muita afluência e com relva, água menos fria que o habitual, mas com as habituais e chatas moscas e os mais de trinta graus centígrados de temperatura. Meti conversa com o Goiense Pedro, a mulher Sandra e a filha Vitória, de três anos de idade, que era mergulhada ao de leve nas águas correntes do rio, ao colo do pai ou às costas da mãe, como um patinho. Mas também fomos incomodados por um grupo de jovens a caminho da adolescência, goienses muito mal educados, que gozavam os últimos dias de férias à solta e sem controlo de adultos, dando mergulhos e incomodando com gritarias, bicicletas e vocábulos impróprios para a sua idade, quem procura paz e sossego. 
Quem os irá «aturar» quando as aulas começarem?!
Olho a foto e despeço-me.

Subida aos Penedos de Góis


Em meados de Agosto, eu assisti a esta viagem, da minha janela na Cerdeira. A subida aos Penedos de Góis. Cerdeirences  de sangue ou de coração, há anos que embarcam nesta aventura. Os mais resistentes, os mais novos, seja quem forem, é preciso é que nunca desistam de nos encantar.
São precisos alguns atributos, que eu não tenho, como força nas canelas...
Subir a 1048 metros de altitude, é obra.
E as nuvens, ai as nuvens, a refrescar. Sentem o aroma das nuvens?
Obrigada MrChaimite pela partilha.
Com este filme, posso ir até lá, quando me apetecer.

A barroca da minha infância

A saudade que tenho da frescura destas águas doces e frias que brotam, um fio, por debaixo duma fraga lá mais acima, se alargam e se estreitam conforme o seu leito feito de pedras, fetos e outras verduras e que chegam aqui. É aqui, na «minha» barroca, que se essas água se expandem, ficam baixinhas. O seu fundo vai subindo de ano para ano, com um acumular de tudo o que as águas trazem e deixam aí depositadas. É um local esquecido. Não por mim. Vai ser bom mergulhar os pés descalços, nas tardes quentes de Verão que ainda estão para vir no próximo Setembro.

Para chegar ao calhau e me sentar - um calhau que rebolou do Penedo há muitos tempos atrás e por ali ganhou cama - sofro um pouco, fazem mossa, as pedras nos meus pés. Ai, ui, algum equilíbrio e sento-me. Sucesso! Olho à volta, aguço o ouvido. Marido na margem seca com Bi ao colo, que a menina não pode molhar-se ... som de águas e pouco mais. Verdes eucaliptos, e mais verdes silvas e moitas e moiteiros e fetos.

Estou ansiosa. Sempre vale a pena ir até lá. Sempre valeu a pena.
Pena mesmo é não ser limpa, aproveitada para todos e por todos...

Estou a 3 dias de mudar de sítio. Lisboa vai de novo encher-se de azáfama. Lá em cima, apenas os silêncios dos que lá moram, o ar respirável, a barroca, o Penedo e pouco mais. Ah! e as courgettes. Já me esquecia das minhas courgettes.

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Estar de bem




Acabada a «reportagem» resumida da subida aos Penedos de Góis (neste momento não disponho de mais material para colocar aqui), volto ao que foi o meu fim de semana prolongado, que soube muito bem e retemperou forças para mais uma quinzena de trabalho. São só mais uns dias, vá lá! Estamos a meio do «meu querido mês de Agosto». Quando Lisboa se encher de novo, os emigrantes voltarem ao País do trabalho, lá vamos nós, gozar as restantes férias do ano para a Serra, de onde não me apetecia nada ter saído ontem. Mas a vida apresenta-se assim. Há que encará-la, não?
Como diz a frase: «Há homens que têm patroa. Há homens que têm mulher. E há mulheres que escolhem o que querem ser» ... eu quero ser e sou a mulher que acompanha o seu homem, que convive com o seu homem e que não depende dele, monetariamente. Daí estar de novo em Lisboa. A escrever, a fazer de dona de casa, enfim, por aqui.
Apesar deste meu feitio se adaptar às circunstâncias, sinto que da minha vida irei sair a perder ... entre o que sou e o que queria ser, vai um passo de gigante. Para me explicar melhor dar um exemplo, eu queria muito ter ficado lá em cima, no meu cantinho na Serra, a cuidar das «minhas» courgettes e dos vasos dos tomates e do pimentinho pequenino e do cantinho das aromáticas, que lá estão, sós, à espera duma pinga de água, que eu sei, vão tendo. Mas não sou eu que dou. E queria. E quando a noite chegasse, arranjaria um local à sombra de qualquer luz, ficaria quieta, namorando o som silencioso da Estrada de Santiago, ouvindo apenas cigarras ou ralos, quiçá um mocho ou uma coruja, que vivem nos pinhais e eucaliptos da band'álem. Olhando para cima, àqueles pontinhos minúsculos a vidas de distância, jogaria palavras para o ar, daquelas que eu tanto gosto: «serena, chama, subtil, perfume, alvo, murmurinho, alma, aia, âmbar, cisne»*. Lembraria momentos, pessoas, vozes que por ali já passaram. Até chegar o primeiro sinal de cansaço, um bocejo, ou porque não, a visita de João Pestana. Sem Internet, sem um risquinho sequer na rede do meu telélé.
Lá, onde a calma reina, eu senti-me-ia bem. Mas não fiquei lá. Segui-o. E vou estando por aqui, fazendo daqui o melhor que puder e souber.


* José Eduardo Agualusa - Milagrário pessoal; pag 58

Já fomos e já voltámos

Silêncio e ralos. O grilo é mais «iii». Andava eu deambulando na rua do meu sítio lá na serra e ouvia dois, pelo menos. Saem à noite debaixo da terra. Nunca consegui olhar nem um! Resolvi ir dar uma volta, rua abaixo, rua acima, que o sono tardava a vir, apesar da viagem de Lisboa e do calor que se fez sentir durante toda a tarde.
Aprecio imenso a noite naquela Serra. Fujo da luz emanada pelos candeeiros da rua, encosto-me a uma parede e olho o céu. Procuro a Estrada de Santiago. Continua a mostrar-se, distante, biliões e biliões de pontos de luz. Sóis e planetas, cometas e estrelas novas, núvens de poeiras, tão belo ... e a nossa lua, cheia, de 13 de Agosto. Eram 23:47 quando a cliquei. Branca e fria, esta é a nossa bela vagabunda dos céus.
Em Góis, José Cid actuava. Havia lá festa e a malta foi. Vão sempre. Afinal estamos no querido mês de Agosto. A aragem fazia chegar aos ouvidos uns vagos sons musicais. À hora que era, de certeza que era ele. São poucos quilómetros, em linha recta, de Góis ao me sítio. E o ar é limpo.
Na manhã de 14, estava combinado uma subida ao Penedo, com ajuntamento e partida da Eira, muito cedo ... eu nunca tive pernas para tal. Fico a gritar cá de baixo e a acenar um pano branco. Faz parte do percurso, durante cerca de duas horas e meia. Gritam de lá, gritamos de cá, para eles se sentirem acompanhados e incentivados. Mas a deitarem-se tarde? Estava-se mesmo a ver. Mas que sim, que sim... eles iriam. Livrem-se de me acordar com as «vuvuzelas», lembrei.
Eu quase que pagava para ver.

Subida ao Penedo de Góis - o começo.

O 1º grupo já ia a subir, algumas vezes tapado pelos calhaus e pelo mato. Estive a fotografá-lo com a máquina do senhor meu Irmão, o Jaime, dado que ele gostava de ter a reportagem completa. Para além disso, o meu telélé não tem hipótese de aproximação condigna com o esforço que eles iam despender.
Entretanto o grupo que se levantou mais tarde por causa da ida à festa a Góis, resolveu meter pés a caminho, perto das 10:00h, um pouco tarde para uma tarefa destas, apesar do Sol brilhante e céu azul que anunciava queimar a pele dos mais encalorados, porque definitivamente a sapeira tinha-se dissipado e o Penedo mostrava-se em todo o seu esplendor convidando os caminhantes a não desistirem.
Continuando eu atenta à minha reportagem fotográfica dos primeiros 3, aguardava a todo o momento a explosão sonora que costuma existir por parte dos que foram e por parte dos que ficam na Cerdeira a vê-los ir, a vê-los progredir na subida, quando mutuamente se vêem.
Fiquei à cóca, a ver quando eles apareciam na estrada do Vale Torto. De repente, o silêncio das 09:50h daquela manhã de Domingo, foi cortada por gritos (uis prolongados), o som de uma concertina ao vivo (Ó minha Rosinha), outros sons trazidos pelo eco, palavras soltas ... e lá estava a bicha de mais de uma dúzia de camisolas coloridas, afugentando cucos, pardais, corvos e outros autóctones com a tradicional berraria de quem se mete por atalhos e se quer fazer ouvir ao longe, por nós, que lhes respondemos também. Ficou gravado o meu grito, que foi espontâneo, e por isso desculpem lá. Também uma frase sentida e um shiu à minha Bi, não fosse ela entrar na festa e «comentar ladrando».
Portanto o filme onde gritei e exultei foi um modo de estar com os retardatários e avisar os outros três, já mais acima na subida, que a caminhada combinada de véspera estava a ter o seu começo.



Subida ao Penedo de Góis - o pior ia começar.


O Grupo retardatário fez uma pausa. Estava quase a entrar no mais penoso caminho até ao cimo. E já eram 11:13 h. Com o telélé, não consegui melhor.

Marido, que filmava ao meu lado com a sua máquina (eu não me entendo com ela ... ), clicou usando zoom e ficou bem melhor. Olhando bem a foto, penso que o «mandador» está a dar as instruções necessárias para que a subida decorra com precaução.

Ocupação

Não paga renda. Instalou-se com a nova família no meu telhado. Depois de algumas espreitadelas, apanhei-o desprevenido. Dá nas vistas, porque prolonga o som por alguns segundos. Desconheço a espécie, mas para mim é o pardalito.
Obrigada pardalito pelo canto e encanto que partilhas, sem te dares conta.

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No Facebook é talvez mais divulgado.



Não vou perder a esperança. «Apareceu na Nacional 2, em Junho, assim, a olhar para o carro da frente e depois para o nosso. Já tinha passado a Póvoa da Cerdeira e encontrava-se a meio caminho do Esporão. Já contei que me comovi ao vê-lo, a dirigir-se ao nosso carro. Não parámos. Continuou a caminhar ... Mais tarde soube que desceu ao Lugar da Cerdeira de Góis e por lá permanece. Tem coleira. Médio porte, castanho e um olhar mel na cor e na expressão. No sábado passado, quando chegámos à Cerdeira, ele lá estava, a olhar para nós. Fiquei contente. Durante dois dias demos de comer a esta menina, porque de uma fêmea se trata. Está prenhe. Não saiu da nossa porta por umas horas. Não podíamos adoptá-la. Pedi a todas as alminhas católicas, apostólicas e praticantes que não a enxotassem, lhe dessem os restos da casa. Ela come tudo. Em Lisboa, nada mais posso fazer.»

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