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O frio não nos impediu de sair de Lisboa


Sábado, arrancámos cedo, estava um dia frio e de sol. Chegámos à Serra e o ar estava limpo e gelado. Ui tão gelado. Abrir portadas para o Sol entrar, ir buscar lenha e acender o fogão. Com tarde bonita, demos um pulo até Góis. Vazia. Meia dúzia de pessoas pelas ruas, ninguém mascarado. Voltámos a casa. Já perto da meia-noite, marido chamou-me. Vem cá ver. E vimos flocos de neve a dançar. Depressa cliquei e cliquei, que estavam menos 1 grau lá fora. O carro ficou branquinho em poucos minutos. Na manhã seguinte, tal como uma criança em manhã de Natal, saltei da cama mal acordei. O Penedo estava todo coberto de branco. Maravilhosa sensação. Continuava muito frio. Mais para a tarde a chuvinha veio substituir os flocos. Estava na hora de começar a arrumar as tralhas. Na manhã seguinte, 2ª feira, O Penedo mantinha o seu manto branco, mas a chuva continuava a cair. Da Estrada Nacional 2 até Alváres estava fechada pela neve e os carros parados. A caminho de Lisboa, viemos pela Lousã até Condeixa, com o frio e a chuva a fazerem-nos companhia. Lembrei este poema de Augusto Gil, Balada da Neve.

«...mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria... .
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho. /...»

A outra parte do poema - «da pobre gente que avança, e noto, por entre os mais, os traços miniaturais duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos... a neve deixa inda vê-los, primeiro, bem definidos, depois, em sulcos compridos, porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza, uma funda turbação entra em mim, fica em mim presa. Cai neve na Natureza e cai no meu coração.» - já não fazem parte do nosso dia a dia.

Apesar dos tempos que atravessamos serem tempos difíceis, as gentes e a criança do poema são de outrora. Não existem mais por cá. Fico feliz por isso.

Estória de 1 poste inclinado

Ir sábado de manhã e voltar 2ª feira, de manhã também. Euzinha, Marido e Bi. Mas está tanto frio!
Como é meu hábito, cliquei aqui, cliquei ali. Com o telélé ou com a EOS, o que estivesse mais à mão. Finalmente tinhamos chegado à terrinha para um fim de semana.
Uma manhã de sol radioso foi um belo presente. 2 graus Centígrados marcados no computador do carro, um friozinho de rachar e um calorzinho de Inverno entrava pela abertura da minha janela, mas o Penedo estava limpinho de núvens, à nossa espera.
Não reparei quando chegámos, mas estava lá. Há quantos dias? Desconheço. Um poste de electricidade perigosamente inclinado para avia pública, de que não demos conta porque estávamos a acabar de chegar ao nosso sítio e desejosos de entrar em casa - um frigorífico - e acender o fogão a lenha para a aquecer. Foi muito bom, o sábado gordo.
No dia seguinte, o tempo já a modos que a querer enfarruscar, fez-nos querer aproveitar e saír de casa para uma voltinha. Um salto aos primos Afonso e Palmira, depois de almoço, para a bica. Era Domingo Gordo, talvez vissemos alguns mascarados...
Metemo-nos no carro e lá fomos. Foi ao dar a curva ao pé da Capela que olhei e vi o poste inclinado. É pá! E se isto ainda cai? Vai fazer estragos.
O que impedia o poste de tombar de vez eram os cabos eléctricos e estavam tão esticados que poderiam romper-se a qualquer instante. Mas será que ainda ninguém viu isto? Será que já alguém comunicou para a EDP?
Já na Póvoa tinhamos apresentado os cumprimentos e distribuindo beijinhos quando chamei a atenção para o poste inclinado lá em baixo, na curva a seguir à Capela. «Ai está?» «Mas então ainda ninguém telefonou?» «Mas isso é um perigo.» «Eu já tinha reparado...».
Respostas que fui ouvindo. E ninguém de cá fez nada?
Olha, disse eu para a Palmira, sabes o número que eu ligo? É grátis e disse-mo. Liguei.
A senhora que me atendeu obteve de mim o que necessitou. Nesse Domingo Gordo à tarde, um pouco mais tarde do que a minha tarde, aparecerem dois senhores do piquete da EDP e arranjaram.
Chegada à Cerdeira, Sábado Gordo, numa manhã de sol. Poste inclinado.
Segunda feira gorda, Neve no Meu Penedo. Chuva e neve para a viagem. Poste na prependicular.
Hoje de manhã, ao voltarmos a Lisboa, cliquei o poste que já estava na devida posição.
Tal como de um dia para o outro o tempo virou, na mesma tarde do mesmo dia uma empresa portuguesa fez o que devia.
É preciso dizer que eu não deixei andar, eu fiz o que devia. E a EDP também.
Nem TUDO é mau no meu País!
.../
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento, com certeza.
/...

Sábado, quando acordei

.../
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim...
/...