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De Lacem a Cacela-a-Velha

Laranjal

Campo de golf

Posted by Picasa

125 azul

A caminho da praia de Manta Rota, visitar Cacela-a-Velha é imperioso. Cacela-a-Velha fica situada no extremo Este do Parque Natural de Ria Formosa, ponto onde acaba a ria, no meio das dunas, a caminho da praia de Manta Rota. Não foi afectada de nenhum modo pelos turistas. Não nasceu para isso. Quem vem, segue, não fica. Não cabe. Penso que só em grupo ou em eventos culturais é invadida. Depois, o silêncio e os olhos perdem-se pela Ria e pelo horizonte. Vi uma casa à venda, onde um gato aproveitou e dormiu a sesta no canteiro que já teve flores.
As casas, na sua maioria, davam sinais de estarem vazias. Outras, sinais de abandono, como uma, no largo do Cemitério, já com as paredes esburacadas e com candeeiro de rua a tombar dela. Não tarda e está no chão. Poucos habitantes? Só sasonais? Talvez. Não chega juntarem-se os turistas nos fins de tarde de Verão e falarem de Ibn Darraj al-Qastalli, nascido em Cacela por meados do século X, nem de bruxas, nem de olhares às estrelas do firmamento. São momentos para turista levar como recordação. Não chega haverem dois restaurantes: “Casa Velha” e “Casa Azul”, com um deles a fechar às segundas para descanso do pessoal. Qual descanso? E durante os outras estações do ano? Ou mesmo em início de Junho? Senti uma passagem daquela coisa chamada degradação, que veio para ficar, se não houver um acorda, vê e conserta. Falta ali mão de gente que gostasse de arranjar, não só o que é seu, mas à volta também. Porque o núcleo habitacional é pequeno, com uma dúzia de casas, se tanto. Só vi uma mulher, magra, que retocava a pintura azul à volta das janelas, que contrastava com o branco das paredes caiadas da sua casa. Comentei o efeito positivamente. Não me pareceu algarvia. Cumprimentou com um sorriso e não fez questão de esconder a trincha que segurava numa das mãos enluvadas.

O núcleo histórico está classificado como Imóvel de Interesse Público, mas e o resto? Tenho pena. É um sítio único para se viver, para se estar a olhar e a respirar. Um bocadinho de Portugal, dos pequeninos, mas belíssimo e com história.
Tipo postal

Turista resguardada do vento fresco que soprava

A segunda casa, está à venda.

Os fios eléctricos atravessam a foto. Fazem parte da paisagem

Contraste. À direita havia gente. À esquerda, não.
Estas também são imagens de Cacela-a-Velha. Sob a Ria Formosa. Fora das muralhas. Pitoresco?

Rua com nome de poeta

Se eu mandasse, retiraria o candeeiro

Daqui também o retiraria. E faria o que pudesse para esta casa não vir abaixo.
Não é um dó?

Se o meu nome desse nome a uma rua ... poderia ser aqui por perto

«Há duas espécies de fadas: as fadas boas e as fadas más. As fadas boas fazem coisas boas e as fadas más fazem coisas más.”
É desta forma que a autora começa por nos contar a história da fada Oriana, uma fada boa, bonita, alegre e feliz, a quem um dia a Rainha das Fadas pôs ao cuidado uma floresta, ficando a seu cuidado homens, animais e plantas que ali viviam. Certa manhã de Abril começou por visitar as casas pobres das pessoas, fazendo, com o uso da sua varinha de condão, que ali aparecessem todas as coisas que faziam falta. Primeiro visitou a casa de uma pobre velha, depois a de um pobre lenhador e ainda visitou a casa de um pobre moleiro. Até que decidiu visitar a casa de um homem muito rico, onde viu que apenas faltava calor humano. Oriana amoleceu-lhe o coração e depois partiu dali e fez com que o homem rico praticasse boas acções. Depois salvou um peixe de morrer asfixiado que prometeu ajudá-la se ela se encontrasse em sarilhos. Por causa do peixe, conseguiu ver o seu reflexo na água e achou-se muito bela. Quando a noite caiu foi visitar o poeta que morava na floresta, a única pessoa que a podia ver. Ela contava-lhe histórias encantadas, dançava á luz da Lua e enchia o ar de música e ele declamava-lhe os seus poemas. Mas a sua grande cisma era a sua beleza. Oriana estava encantada com a sua própria beleza reflectida na água. À custa disto, e por influência do peixe, deixou de visitar o poeta e, um por um, foi abandonando todos os homens, animais e plantas que viviam na floresta, menos a pobre velha porque a ouvia falar da sua beleza enquanto fora jovem. À custa dos intermináveis elogios do peixe que salvara, tornou-se muito vaidosa, descuidando a promessa que fizera á Rainha das Fadas e por isto mesmo ficou sem varinha de condão e sem asas, e este foi o castigo pelo seu descuido. O peixe, a certa altura, deixou de aparecer, os animais já haviam partido para muito longe, assim como foi o moleiro, o lenhador e o poeta. Oriana foi então para a cidade á procura dos seus amigos, mas eles não a reconheceram sem asas e sem varinha de condão. O lenhador estava na prisão, a mulher do moleiro não sabia do filho e o poeta já não acreditava em fadas. Oriana só voltou a ter asas quando se esqueceu de si mesma e salvou a velha de se atirar de um abismo, tal era a sua tristeza. Foi então quando os animais da floresta lhe deram o filho do moleiro e ela devolveu-o à moleira, soltou o lenhador da prisão e salvou o poeta da sua tristeza, levando-o de novo para a floresta e Oriana voltou a encantar tudo em seu redor. »

Esta poetiza está bem aqui. É o seu sítio. Penso eu.


Diz à Primavera:
estende as nuvens do teu manto
e abre os teus véus
sobre os lugares onde brinquei
na minha infância.
não me desiludas, Primavera
as minhas lágrimas vão no teu encalço
em longas vagas.
mistura o perfume da minha saudade
a humidade das nuvens
para aspergires aqueles a quem amo.
debruça - te sobre Córdova e estreita - a
como eu a estreitaria contra o peito
depois,
sobre os vales e colinas que são seus
espalha flores
que anunciarão através de ti
que lhe mando a mensagem
.
Ibn' Darraj Al - Qastalli (958 - 103o), O meu coração é árabe (tradução de Adalberto Alves) yAlmendruqueiru