Porquê, não sei ainda
José Mário Branco
A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda
25 de Abril, sempre
Festejarei esta data histórica, até que viva. Ontem à noite, fui fiel ao canal 1. Assisti a uma festa dedicada ao trigésimo quinto aniversário do 25 de Abril. O palco parecia uma moldura onde a história cantada por poetas se desenrolava. Revi caras do 25 de Abril. Senti falta de outras. Vivi de novo a festa, cantei, emocionei-me. Ouvi todos, relembrei alguns ...
Mas quando José Mário Branco apareceu, convenceu-me. Este homem, que cantei durante muitos anos, apresentou-se com a sua guitarra, ainda fiel ao sonho. Coragem e algum desencantamento, mas a mesma voz. A mesma postura de sempre. Um cantor de intervenção. E gritei, acompanhando-o: "A cantiga é uma arma /eu não sabia/ tudo depende da bala/ e da pontaria/ Tudo depende da raiva/ e da alegria/ a cantiga é uma arma/ e eu não sabia..."
Levou-me de viagem a um tempo onde havia um País para re-construir. E para continuar a construir, ainda hoje, passados tantos anos. Sinto que, ontem, ao ouvi-lo, ao acompanhá-lo, ganhei alento e acreditei de novo que podemos mudar. «Nunca se vai impunemente para cima de um palco.»* Pois é. Com paixão, com raiva, a cantiga continua a ser uma arma.
