
Não penses.

Do pragmatismo das pragmáticas
«[...] Giram as estações e os dias, /giram os céus, rápidos ou lentos,/as fábulas errantes das nuvens,/de campos de jogos e campos de batalha /de instáveis nações de reflexos, /reinos de vento que dissipa o vento: nos dias serenos o espaço palpita,/os sons são corpos transparentes, /os ecos são visíveis, ouvem-se os silêncios./Manancial de presenças, o dia flui soberbo nas suas ficções.[...] Otavio Paz, Rememoración (Segundo Tablero), in: Pasado en Claro, 1974 Trad. M.A.V.F.
Eram ricos. Eram poderosos. Eram reis ou imperadores. Em quase todas as civilizações antigas, considerados detentores de um mandato divino na terra, com a missão de estabelecerem a justiça e a paz, o equilíbrio e a harmonia no mundo. Entre os Celtas, de cuja cultura ainda se encontram vestígios no nosso país, um bom rei (eleito pelos nobres, como qualquer primeiro-ministro actual) era aquele que assegurasse a prosperidade dos seus súbditos. Ele era apenas o distribuidor dos tributos e dos impostos que lhe eram confiados. Por seu lado, rei que lançasse impostos, retirando deles benefícios pessoais, sem, em troca, dar qualquer compensação ao contribuinte, era considerado um mau rei, em cujo reinado a terra, as plantas e os animais se tornariam estéreis. (Sei que não temos rei, mas há quem diga que este ano a terra está seca, que as árvores se negaram a dar fruto... Não. Ninguém me falou dos animais.) Na realidade, se eram ricos e poderosos, ainda que, aparentemente, jamais bons, eram também pragmáticos, não no sentido de "adeptos do pragmatismo", teoria filosófica do séc. XX, mas sim no comezinho sentido original de "prático", do grego "pragmatikós": quando as despesas excediam as receitas do reino, e as régias burras ficavam vazias de dobrões, cruzados ou maravedis, por exemplo, havia o recurso, ainda actual, de lançar novos impostos, que em Portugal podiam ter nomes tão apelativos como, entre outros, fossado, calúnia, anúduva, açougagem e alcavala, fossado, calúnia, anúduva, açougagem e alcavala, e que, à míngua de numerário, até ao séc. XV, eram frequentemente pagos em géneros (sobretudo em trigo e panos). Muito actual, também, era o recurso a empréstimos, tendo a nossa familiar locução "dívida pública" surgido, paradoxalmente, em Portugal nos séculos das especiarias da Índia, do ouro do Brasil - do apogeu do poderio político e económico português. Quase todos os monarcas europeus passaram, ao longo da História, por graves crises financeiras. Os reis portugueses não foram excepção. Curioso é o facto de, por vezes, essas crises financeiras serem suscitadas, ou, pelo menos, agravadas pela tendência para o novo-riquismo, para o luxo delirante, das elites sociais portuguesas das diversas épocas, de que não estava isenta a própria Casa Real. Incapazes de aumentar as receitas, os reis procuravam equilibrar a sua balança comercial, desequilibrada pelas importações de artigos de luxo do estrangeiro, mediante a contenção das despesas, do ruinoso despesismo incontrolável, o que faziam através de Pragmáticas, ou decretos reais, como a Pragmática contra o Luxo, de 1749, "em que se regula a moderação dos adornos, e se proíbe o luxo e o excesso dos trajes, carruagens, móveis e lutos, o uso de espadas a pessoas de baixa condição, e outros diversos abusos, que necessitavam de reforma". Esta Pragmática, que também se aplicava às colónias da época, estipulava, inclusive, o que os negros e mulatos deviam usar e impedindo-os de vestir do mesmo modo que os brancos. O seu incumprimento implicava pesadas sanções, que podiam ir da prisão a dois anos de degredo. Diante dos meus olhos sonolentos desfilam na madrugada modelos envoltos em metros e metros de sedas da Flandres e brocados de Itália, com rendas de Bruges, de bilros de Peniche e de Vila do Conde, pérolas do Oriente, pedrarias da Índia... Nas cabeleiras empoadas, fitas e plumas de Paris e, bem ocultas sob esse delírio sumptuário, nas leitosas coxas celulíticas à Rubens, uma liga de fio de ouro fino do Brasil, de cuja existência apenas sei, evidentemente, pela indiscreta Pragmática que a proíbe.»
Maria Alice Fabião
Fonte: Revista Tempo Livre. O Tempo e as palavras - Do pragmatismo das pragmáticas: Nov 2010; pág79
E eu escrevo, filho de Sakineh, Sajjad Ghaderzadeh.
Daniel Filipe, in: A invenção do Amor e outros Poemas, Lisboa, 1961.
Há meses que, emoldurado num manto negro como o silêncio eterno do Nada sem futuro, o seu rosto macerado me persegue, bem em evidência, no topo da página do jornal “online” de leitura matinal obrigatória. Olho-a nos olhos, terrivelmente expressivos na paradoxal ausência de expressão. Com a inevitabilidade dos automatismos, todos os dias a imaginação lhe sobrepõe, surgido do abismo da memória, aquele outro rosto de mulher que, sobressaindo, na sua palidez, do roxo bordado a ouro do manto de veludo que o envolve, olhos erguidos para o céu, uma lágrima perene detida a meio-correr na face direita, lábios entreabertos numa súplica jamais formulada, encheu de mistério e angústia as missas dominicais da minha primeira infância. Como que a explicar a razão de tanto sofrimento, a dona daquele rosto apontava, com dedos delicados, para as sete espadas que, em leque, lhe trespassavam o coração que alguém lhe arrancara do peito. Nossa Senhora das Dores - Sakineh Ashtiani. Sakineh. Um rosto; um rosto e um nome. Rosto e nome, porém, de muitos rostos e de muitos nomes - de todas as passadas e futuras vítimas das modernas teocracias islâmicas fundamentalistas, de leis e punições demasiado cruéis, desumanas, cuja lembrança vergonhosa os povos ocidentais há muito gostariam de ver apagada da sua memória histórica. Sakineh. É evidente que Sakineh é culpada. Não talvez culpada de ter um gato preto – coisa que na Europa medieval lhe valeria uma condenação por prática de bruxaria. Não, talvez, culpada de ter um sinal no rosto, coisa que, nesse mesmo então, seria, para os bons cristãos, demonstração do seu relacionamento com o próprio Belzebu e justificaria a sua condenação a uma santa fogueira ou ao enfossamento, método específico para mulheres, já que enterrando-as vivas os executores não corriam o risco de atentar contra o pudor da condenada, como aconteceria num enforcamento prévio. Na realidade, muito provavelmente, Sakineh só não é culpada do “crime” de adultério de que é acusada pelos juízes, que, interpretando a Sharia ao arrepio dos ensinamentos do Corão e baseados na sua intuição pessoal, dispensaram os testemunhos de três homens e duas mulheres e a condenaram a ser morta por lapidação.
A culpa de Sakineh, como de, entre muitas outras, Bibi Sanubar e Mariam (grávidas), e da pequena Leila (13 anos), lapidada por ter sido violada por três adultos, não foi terem cometido adultério, mas sim terem nascido mulheres no Irão, na Nigéria, na Arábia Saudita, na Somália ou em qualquer um dos países em que, após a revolução islâmica (1979), passou a imperar a Sharia (lei islâmica), na sua versão mais dura e arbitrária. É verdade que o conceito de adultério difere, no Islão, bastante do dos nossos lexicógrafos ocidentais, para quem adultério é “a violação do dever recíproco de fidelidade entre casados”. Para o legislador islâmico, é absolutamente lícito ao homem viver com quatro mulheres - desde que casado com elas. Adultério é, para ele, qualquer relação, sobretudo da mulher, fora do casamento, e a sua punição é, no total desrespeito dos direitos humanos, a morte por LAPIDAÇÃO (do latim lapidatione - “acto de atirar pedras”), ou APEDREJAMENTO, frequentemente precedida de 80 ou 100 chicotadas, para “persuadir” da sua própria culpa o acusado mais inocente.
Escrevi em papelinhos
Compaixão e piedade serão a mesma coisa? Não. Por exemplo, amar alguém por piedade é ser mais favorecida que esse alguém, é inclinar-me, baixar-me até ele. Ao passo que "Amar alguém por compaixão é de facto não amar essa pessoa. Nas línguas onde a palavra compaixão não se forma com a raiz «passio igual a sofrimento» mas com o substantivo «sentimento», a palavra é empregue mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que designe um sentimento mau ou medíocre. A força secreta da sua etimologia banha a palavra de uma outra luz e dá-lhe um sentido mais lato: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com o outro não só na sua infelicidade mas sentir também todos os seus outros sentimentos: alegria angústia, felicidade, dor. Esta compaixão designa portanto, a mais alta capacidade de imaginação afectiva, ou seja, a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia das dos sentimentos, é o sentimento supremo. "(*)
(*) Milan Kundera «A insustentável leveza do ser»
Vou guardar este texto, em papel. E colocá-lo aqui também.
Sem pais / as crianças do infortúnio / vagueiam / como estrelas solitárias / como fósforos acesos / como fogos de bengala / que ardem sem fim / como anjos caídos / sem casas / nem portas / nem janelas[…] / As crianças do infortúnio / vagueiam / semelhantes a flores do abismo [...] / alheias / ao iminente / ocaso da terra [...] /
Tarek William Saab (1), in: Los niños del infortunio, Memorias de la Misión Médica Cubana en Pakistán, Ed. Plaza, Havana, 2006 Trad. MAVF
(1) Advogado, especialista em Direitos Humanos.Venezuela, 1963
Maria Alice Vila Fabião in: FEV 2010 TempoLivre 79.
45 lições de vida
«Para celebrar o envelhecer, uma vez eu escrevi 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais requisitada que eu já escrevi. Meu taxímetro chegou aos 90 em Agosto, então, aqui está a coluna, mais uma vez:
1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
2. Quando estiver em dúvida, apenas dê o próximo pequeno passo.
3. A vida é muito curta para perdermos tempo odiando alguém.
4. Seu trabalho não vai cuidar de você quando você adoecer. Seus amigos e seus pais vão. Mantenha contacto.
5. Pague suas facturas de cartão de crédito todo mês.
6. Você não tem que vencer todo argumento. Concorde para discordar.
7. Chore com alguém. É mais curador do que chorar sozinho.
8. Está tudo bem em ficar bravo com Deus. Ele aguenta.
9. Poupe para a aposentadoria, começando com seu primeiro salário.
10. Quando se trata de chocolate, resistência é em vão.
11. Sele a paz com seu passado, para que ele não estrague seu presente.
12. Está tudo bem em seus filhos te verem chorar.
13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem ideia do que se trata a jornada deles.
14. Se um relacionamento tem que ser um segredo, você não deveria estar nele.
15 Tudo pode mudar num piscar de olhos; mas não se preocupe, Deus nunca pisca.
16. Respire bem fundo. Isso acalma a mente.
17. Se desfaça de tudo que não é útil, bonito e prazeiroso.
18. O que não te mata, realmente te torna mais forte.
19. Nunca é tarde demais para se ter uma infância feliz. Mas a segunda só depende de você e mais ninguém.
20. Quando se trata de ir atrás do que você ama na vida, não aceite "não" como resposta.
21. Acenda velas, coloque os lençóis bonitos, use a lingerie elegante. Não guarde para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Se prepare bastante; depois, se deixe levar pela maré.
23. Seja excêntrico agora, não espere ficar velho para usar roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
25. Ninguém é responsável pela sua felicidade, além de você.
26. Encare cada "chamado" desastre com essas palavras: Em cinco anos, vai importar?
27. Sempre escolha a vida.
28. Perdoe tudo de todos.
29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo.
31. Independentemente de a situação ser boa ou ruim, irá mudar.
32. Não se leve tão a sério. Ninguém mais leva.
33. Acredite em milagres.
34. Deus te ama por causa de quem Ele é, não pelo que você fez ou deixou de fazer.
35. Não faça auditoria de sua vida. Apareça e faça o melhor dela agora.
36. Envelhecer é melhor do que morrer jovem.
37. Seus filhos só têm uma infância.
38. Tudo o que realmente importa, no final, é que você amou.
39. Vá para a rua todo dia. Milagres estão esperando em todos os lugares.
40. Se todos jogássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos os de todo mundo, pegaríamos os nossos de volta.
41. Inveja é perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
42. O melhor está por vir.
43. Não importa como você se sinta, levante, se vista e apareça.
44. Produza.
45. A vida não vem embrulhada em um laço, mas ainda é um presente».
Um livro - Uma prenda, um presente
Para juntar algumas 'provas', encontrei estas. Actualíssimo, tanto o livro como as fotos. São Fotografias de conteúdo dramático. Porque existem homens e mulheres e crianças que sofrem mas também que conseguem o seu máximo e homens e mulheres que os captam, nuns clics, nos momentos certos. Emoções, principalmente.
Porque por cá, a Liberdade existe para as divulgar, e porque por cá, a liberdade existe para tomarmos conhecimento, vou juntar palavras e imagens. São imagens fortes, de sofrimento. Todas retratam o auge de um momento da humanidade. Da guerra na sua maioria. Da esperança em poucas. Da impotência em bastantes. Das reacções da mãe natureza e do desespero nas gentes, em algumas. Dos refugiados, as suficientes. Do desamor pelo outro, noutras tantas. Do esforço humano recompensado, as evidentes. Também do amor, em apenas duas.
A História de uma década em 100 imagens, Fotografias é deste início de século, de conteúdo dramático e muito fortes. Decerto haverá muitas outras 100's para serem divulgadas. Mas esta foi a escolha dos autores. E já sobra pano para mangas.
Nenhuma é sobre Portugal. Deduzo que é um bom sinal, comparando o meu povo com os povos de algumas das imagens. Fazemos as nossas próprias porcarias mas são tão medíocres que não somos notícia para o Mundo. Da demagogia me queixo, porque a considero tal como o poeta: uma ratoeira. Porque há, cada vez mais esta prática. E se há repórteres nacionais que nos mostram a nossa realidade, a maioria vende o que a voz do dono manda.
Estou 100% de acordo com este Senhor. Com o pensar do Dr. Fernando Nobre, pessoa portuguesa que muito admiro pela sua obra, pela sua maneira de ser e de estar na vida. Pelo que nos transmite da sua experiência. E já agora, deixe-me agradecer-lhe a sua dedicatória no seu livro, pela parte que me toca, por não ter sido profícua e ser tia de todos. Escreveu assim:
Dedico este livro .../ aos meus filhos (os biológicos e os de todo o Mundo)
.../. Dedico este livro a todos os seres vivos e ao nosso planeta Terra.
Ninguém é mais pobre que os mortos
A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso.
E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.»
Ninguém é mais pobre do que os mortos.
Armada em lagarta da couve
Momentos (III)
Levei e li mais um livro deste homem do Porto. Em vez de fazer outra coisa, nos dias em que a temperatura subiu a mais de 35 graus Centígrados, no início do mês de Setembro. No céu lá da Serra, com poucas luzes nas ruas que nos encandeiem o olhar, a Estrada de Santiago é avistada com bastante nitidez. Dá jeito usar a imaginação e saber sonhar. Foi boa a sensação de quase deserto. Da educação cívica
.../
O enorme descrédito que atinge hoje o regime democrático impõe que se erija em questão central a educação cívica, entendida esta no sentido de preparação para a cidadania, para (con)viver de maneira política, social e moralmente responsável.
Em primeiro lugar ela deverá prevenir a crescente e letal influência exercida pela ignorância e pelo populismo, cujo predomínio constitui o mais grave problema da democracia. Por isso a educação cívica assume-se como uma competência para a comunicação argumentada. Para pôr cobro à incapacidade para expressar exigências ou para compreender as que são formuladas pelos outros, para argumentar a favor das posições próprias e para refutar os argumentos e ardis alheios, para ultrapassar a carência de compreensão dos direitos e deveres impostos pela vida em sociedade e para contrariar a acção retrógrada e patológica de tribos, lobies e corporações de
interesses ilegítimos. São os cidadãos ignorantes, todos com direito a opinião e a voto, quem sustenta os populistas e demagogos que prometem o paraíso e o bacalhau a pataco e arranjam bodes expiatórios para todas as crises e frustrações.
Em segundo lugar a educação cívica leva em conta a máxima de Aristóteles, de que “ninguém pode chegar a governar sem ter sido antes governado”. Isto é, todos temos que adquirir o sentido da equidade e responsabilidade, aprender a obedecer a leis e a praticar os valores partilhados. Até porque a trave mestra da democracia consiste em que nela não haja especialistas em mandar e especialistas em obedecer, mas sim em que todos os cidadãos sejam aptos para desempenhar os dois papéis. Por isso será cívica a educação que optimize os cidadãos, que os forme como príncipes inter pares, inculcando neles tanto a condição de mando como a de obediência, tanto a de objecto das leis como a de sujeito delas. Sendo os meios que justificam os fins, a democracia só tem justificação se for servida por este tipo de cidadãos.
/...
Jorge Olímpio Bento: Educação cívica, liberdade e humanidade; Rev. Port. Cien. Desp. v.5 n.3 Porto set. 2005
Li há tempos

.../Quem julgue que o Parlamento serve para pensar, ouvir, falar, aprender, argumentar, discutir, esclarecer e fiscalizar está enganado. Ali, passa-se o tempo. E como a ausência ao hemiciclo é constante e elevada, alguém congeminou esta inovação: vamos trazer-lhes divertimentos, vamos atrair os deputados com imagens e filmes. Vamos permitir-lhes que tenham acesso rápido ao “twitter”, ao “messenger”, ao “face book” e ao “you tube”. Vamos dar-lhes imagens, que valem milhares de palavras. Vamos dar-lhes qualquer coisa que lhes interesse, que os seduza. E já agora que os impeça de se interessarem pela política e pelo debate.-
VALHAM-NOS os jacarandás. Apesar da crise e mau grado uma Primavera esquisita, o primeiro, lá para os lados de Belém, floriu esta semana. Timidamente. Ainda sem brilho aparente. Mas já cá está.
Fotos roubadas daqui.
Li há tempos
Sábias palavras de Mário Lago (1911-2002). Advogado, poeta, homem da rádio e actor brasileiro.
Bom fim de semana.
Li há tempos
Naquele tempo, há quase sessenta anos, as pessoas tinham muito medo dos hospitais, e era uma vergonha deixar que algum parente da província lá morresse. Era como se o tivéssemos largado, abandonado a meio do caminho, como nas histórias que à noite nos contavam. Por isso, assim que algum adoecia com gravidade, logo o traziam para nossa casa. Então, era um corrupio de médicos e enfermeiros, e a tia Clara a dar ordens a toda a gente, e a tratar de tudo – e apareciam então palavras lindíssimas como *MERCÚRIO*, *TEMPERATURA*, *ÁLCOOL*, *ÉTER* – palavras que se desfaziam na minha boca como frutos maduros.Depois um dia o tio morria e então as velhas tias desmanchavam a sala de jantar — e a mesa enorme, onde todos os dias almoçávamos e jantávamos, ficava empilhada a um canto nas suas muitas tábuas, enquanto o tio era trazido do quarto e metido num caixão, colocado mesmo a meio da sala de jantar. O tio transformava-se então no *FALECIDO*, palavra de que eu também gostava muito — mas nada, oh nada que se comparasse à maravilha do *TIOZINHO-QUE-DEUS-HAJA* com que o baptizavam alguns dias depois. (Durante muito tempo,*QUEDEUZAJA* foi uma palavra única na minha cabeça, com significado que me escapava, mas encaixada entre os sons mais bonitos que a língua me podia oferecer.) Vinha a seguir o *VELÓRIO*- palavra mágica, santo Deus!, com aquele *ó* muito aberto, muito prolongado, e em toda a sua força esdrúxula…— e o cheiro a álcool e a éter , entranhado nas paredes da nossa casa, começava a misturar-se com o perfume adocicado dos *CRISÂNTEMOS* e dos *LÍRIOS*—mais duas palavras para a minha colecção de maravilhas. Depois o caixão desaparecia pelas escadas abaixo, regressava a mesa, e nós voltávamos a
almoçar e a jantar no exacto lugar onde estivera o tio morto, e a vida continuava. E, durante muitos dias, as conversas giravam todas à volta da doença do morto – e os meus ouvidos captavam, e a minha boca repetia depois, no silêncio do meu quarto, sonoridades extraordinárias como *PNEUMONIA*, *SEPTICÉMIA*, *EMBOLIA* — terminando sempre com a mais bela de todas, a que a tia Clara repetia sempre, no fim do extenso rol das desgraças : *MARTÍRIO* — Foi um martírio – murmurava ela. E todos aqueles *ii* soavam como música dentro dos meus ouvidos. Repito: pode não ter sido a maneira mais convencional, mas foi aqui, no meio deste estranho cenário, que eu descobri a magia dos sons que constroem as palavras. Que constroem os sonhos.Crónica
Alice Vieira: TempoLivre, MAR 2009
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Sou da mesma opinião.
Li algures
Parece que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado e foi para Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se.
Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim? Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Por que se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psicosócio-bio-ecológica da camaradagem. A paixão que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão emrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasco de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas e cantina, malta do "tá em, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, babanóides, borrabotas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim da tristeza, o desequilibrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Por onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facdo, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que nãosabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperante. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sózinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa e o amor é outra. A vida dura uma vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."»
Miguel Esteves Cardoso In "Expresso"
Escrever é um modo de falar sem ser interrompido*
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Romania (RO) 2
Mexico (MX) 2
Macau (MO) 1
Czech Republic (CZ) 1
Netherlands (NL) 1
Luxembourg (LU) 1
Russian Federation (RU) 1
Sweden (SE) 1
Colombia (CO) 1
Morocco (MA) 1
Dominican Republic (DO) 1
Philippines (PH) 1
Thailand (TH) 1
Cape Verde (CV) 1
Malaysia (MY) 1
Fonte: ClustrMaps
Poderiam ser os votos num festival da Mundovisão de apresentação de uma qualquer Arte. Com Portugal mais votado!!! Em que consistiria essa arte para sermos tão bem classificados? Aceito sugestões.
Mas não é:) Que procurariam estes internautas? Será que encontraram aqui alguma resposta?
*Jules Renard
Li hoje e vi a peça na TV
15.03.2009 - 14h04 Lusa
A falta de dinheiro devido à crise não é motivo para as famílias deixarem de ter uma alimentação boa, defendem os dietistas, que apontam várias soluções saudáveis. "Não é preciso comer carne e peixe diariamente ao almoço e jantar", explicou a presidente da Associação Portuguesa dos Dietistas, atribuindo a estes alimentos um preço elevado.
Esta opinião é corroborada pela dietista Maria Fernanda Fogaça, que considera que há um consumo muito excessivo de proteínas na alimentação. "As nossas necessidades de proteínas são de um grama por cada quilo e por dia, sendo que só metade devem ser de origem animal", referiu, adiantando: "100 gramas de carne ou de peixe têm 20 gramas de proteínas". Considerando o elevado preço do peixe e da carne, as duas dietistas defendem um menor consumo daqueles tipos de alimentos. Graça Raimundo aconselha, por exemplo, a confecção de feijoadas, "com pouca gordura", jardineiras ou caldeiradas, pratos que levam menos quantidades de carne e peixe. "Posso substituir a carne de avestruz ou o bife da vazia por carne de aves, que são mais económicas e também posso substituir a carne e o peixe por ovos e leguminosas, nomeadamente o feijão ou o grão", referiu, aconselhando também a compra de fruta da época e hortaliças. Para esta dietista, esta altura de crise económica poderá também servir para recuperar hábitos antigos, como seja o aproveitamento de restos de comida como o pão para fazer migas ou açordas.Outro aspecto em que as duas profissionais concordam é na ideia de que se devem evitar os pequenos-almoços fora de casa. "Criou-se muito o hábito de se tomar o pequeno-almoço fora de casa. Acaba por se comer folhados e bolos em vez do pão", disse Maria Fernanda Fogaça, adiantando que também se pode aproveitar o momento para não gastar dinheiro em produtos com açúcar. "São truques que podemos fazer e que estão ao nosso alcance e tem a ver com a organização e gestão dos nossos recursos", sintetizou Graça Raimundo.
Haja decoro meus senhores!
19.03.2009 - 13h33 Lusa
Um tribunal de júri, em Vila Franca do Campo, Açores, condenou hoje a quatro anos de prisão, com pena suspensa, um médico acusado de abuso sexual de duas crianças, entre 2004 e 2006. Além de um crime continuado de abuso sexual de crianças (três anos de prisão), o médico de clínica geral, natural da ilha de São Miguel, foi também condenado por um crime de abuso sexual de crianças (1 ano e 8 meses de prisão), o que resultou numa pena única de quatro anos. O Tribunal decidiu absolver a mãe e a avó das vítimas, que estavam acusadas de omissão do dever de vigilância das crianças. Segundo o tribunal, não ficou provado que as arguidas sabiam os fins para que as menores estavam a ser usadas e da convivência com o arguido, permitindo a continuação das práticas sexuais. Durante o julgamento, o médico que exerce medicina há mais de 20 anos, e a trabalhar no continente, confessou a quase totalidade dos factos, mostrando-se arrependido e envergonhado. Este caso remonta a 2004, quando o clínico se deslocava a São Miguel para passar férias, tendo a partir daí mantido contacto regular com as vítimas, oferecendo-lhes presentes e ajudando-as monetariamente. Na fixação da pena, o Tribunal teve em conta o facto de "não se ter apurado especiais sequelas para os menores", a confissão do arguido, o seu arrependimento e ausência de antecedentes criminais. Por tudo isto, o Tribunal entendeu que a actuação do médico "tenha sido um acidente na sua vida", e que "a simples censura do facto e a ameaça da prisão realizam de forma adequada e suficiente as finalidades da punição". À saída da leitura do acórdão, o médico recusou-se prestar declarações aos jornalistas. Quanto ao seu advogado disse que vai analisar o acórdão para depois decidir se irá ou não recorrer da sentença. O julgamento deste processo, que decorreu à porta fechada, foi efectuado com um tribunal de júri, composto por três juízes e quatro jurados escolhidos do círculo eleitoral do concelho de Vila Franca do Campo.
Li agora
Por Joaquim Letria
OS DEPUTADOS não se dão ao respeito. Imaginem a vergonha lá fora: num total de 230, os parlamentares portugueses, com grande número em “part-time”, conseguiram fazer 244 substituições! Não se conhece nenhum parlamento assim. Com tantas entradas por saídas só casas de passe!
Os recordistas foram os laranjinhas, mas os socialistas, logo atrás, não ficaram muito distanciados, e até os pequeninos, como os verdes e os bloquistas, aprenderam depressa a rotatividade dos interesses, uma realidade a que nem o PCP escapa, absorto pelo imobiliário no poder local.
A vantagem deste regabofe é ficarmos desobrigados e podermos pagar na mesma moeda. Como nem conhecemos os nossos queridos representantes, não ofendemos ninguém em particular se deixarmos um cesto de manguitos em São Bento, votando em branco, em vez de continuarmos a contribuir para as pensões destes cavalheiros.
«24 Horas» de 18 de Março de 2009
