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«Fado português», um dos meus preferidos



O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.



Por causa do Melro. Uma petição que já assinei

Não consegui, ainda, clicar um melro. Tenho-os como vizinhos, em frente à minha janela. Vejo-os voarem. Voam baixo, é difícil clicá-los. Se o governo, seja ele qual for, acha que os melros são uma espécie cinegética, pensa mal. Ou antes, não pensa. Um pássaro que nos encanta com o seu canto ser alvo de um caçador desportivo? Que virá a seguir? Oficializam a «fisgas» para caçar pardais? Ou andorinhas?
Há tanta incompetência à solta, céus! E esta incomoda-me muito.
Assinei aqui a petição que decorre há umas semanas. Não sei se fará alguma mossa, mas deveríamos assinar, todos os que se sentem incomodados com esta lei estúpida.
Fica um poema, brilhante, de Guerra Junqueiro. Estas «coisas escritas» pelos nossos Escritores, passo a redundância, eram de leitura obrigatória no meu tempo de estudante. Ler Guerra Junqueiro, alguém se lembra?
Roubei-o na NET.

O MELRO

O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro; dentre a horta,
Dizia-lhe: "Bons dias!"
E o velho padre-cura
não gostava daquelas cortesias.

O cura era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro:
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro desprezava os exorcismos
Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
Até que ultimamente
O velho disse um dia:

"Nada, já não tem jeito!, este ladrão
Dá cabo dos trigais!
Qual seria a razão
Por que Deus fez os melros e os pardais?!"

E o melro entretanto,
Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente
A madrugada clara,
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apesar disto, o rude proletário,
O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.

Que grande tolo o padre confessor!

Foi para a eira o trigo;
E, armando uns espantalhos,
Disse o abade consigo:
"Acabaram-se as penas e os trabalhos."
Mas logo de manhã, maldito espanto!
O abade, inda na cama,
Ouvindo do melro o costumado canto,
Ficou ardendo em chama;
Pega na caçadeira,
Levanta-se dum salto,
E vê o melro, a assobiar, na eira,
Em cima do seu velho chapéu alto!

Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre-cura andava enfermo;
Não falava nem ria,
Minado por tão íntimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura
(Muito embora o leitor não me acredite),
Que o bom do padre-cura
Perdera o apetite!

Andando no quintal, um certo dia,
Lendo em voz alta o Velho Testamento,
Enxergou por acaso (que alegria!,
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros, escondido
Entre uma carvalheira.

E ao vê-los exclamou enfurecido:

"A mãe comeu o fruto proibido;
Esse fruto era minha sementeira:
Era o pão, e era o milho;
Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Igreja. Estou vingado!"

E, engaiolando os pobres passaritos,
Soltava exclamações:
"É uma praga. Malditos!
Dão me cabo de tudo esses ladrões!
Raios os partam! Andai lá que enfim"

E deixando a gaiola pendurada,
Continuou a ler o seu latim,
Fungando uma pitada.

Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda douradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
Das plantas dos herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginais as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as crianças.

Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura,
Destacava na frouxa claridade,
Como uma nódoa escura.
E, introduzindo a chave no portal,
Murmurou entre dentes:

"Tal e qual tal e qual!
Guisados com arroz são excelentes."

* * * * * *

Nasceu a Lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, aveludado,
Do sorriso dos mártires, dos justos.
Um eflúvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da matéria
Murmuravam diálogos gigantes
Pela amplidão etérea.
São precisos silêncios virginais,
Disposições simpáticas, nervosas,
Para ouvir falar estas falas silenciosas
Dos mundos vegetais.
As orvalhadas, frescas espessuras,
Pressentiam-se quase a germinar.
Desmaiavam-se as cândidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar.
..................................................
..................................................

E nisto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar, andou buscando
Umas penugens doces como arminho,
Um feltrozito acetinado e brando.
Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e, louco e mudo,
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.

"Quem vos meteu aqui?!" O mais velho,
Todo tremente, murmurou então:

"Foi aquele homem negro. Quando veio,
Chamei, chamei
Andavas tu na horta
Ai que susto, que susto!, ele é tão feio!
Tive-lhe tanto medo! Abre esta porta
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos a construir a nossa casa
Num bonito lugar
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas
Para voar, voar!"

E o melro alucinado
Clamou:

"Senhor! senhor!
É porventura crime ou é pecado
Que eu tenha muito amor
A estes inocentes?!
Ó natureza, ó Deus, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
Os filhos que eu criei!
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,
Quanta noite perdida
Nem eu sei...
E tudo, tudo em vão!
Filhos da minha vida
Filhos do coração!!!
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o Céu par voardes,
E prendem-vos assim desta maneira!
Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano,
Eis o aguilhão, a fé que nos abrasa
Encarcerar a asa
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! Quase à noitinha
Parti, deixei-os sós
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
De mais ninguém! Que atroz!
E eu devia sabê-lo!
Eu tinha obrigação de adivinhar
Remorso eterno! eterno pesadelo!
.................................................

Falta-me a luz e o ar! Oh, quem me dera
Ser abutre ou fera
Para partir o cárcere maldito!
E como a noite é límpida e formosa!
Nem um ai, nem um grito
Que noite triste!, oh, noite silenciosa!"

E a natureza fresca, omnipotente,
Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heróis.
Nas sebes orvalhadas,
Entre folhas luzentes como espadas,
Cantavam rouxinóis.

Os vegetais felizes
Mergulhavam as sôfregas raízes
A procurar na terra as seivas boas,
Com a avidez e as raivas tenebrosas
Das pequeninas feras vigorosas
Sugando à noite os peitos das leoas.
A lua triste, a Lua merencória,
Desdémona marmórea,
Rolava pelo azul da imensidade,
Imersa numa luz serena e fria,
Branca como a harmonia,
Pura como a verdade.
E entre a luz do luar e os sons das flores,
Na atonia cruel das grandes dores,
O melro solitário
Jazia inerte, exânime, sereno,
Bem como outrora o Nazareno
Na noite do calvário!

Segundo o seu costume habitual,
Logo de madrugada
O padre-cura foi para o quintal,
Levando a Bíblia e sobraçando a enxada.
Antes de dizer missa,
O velho abade inevitavelmente
Tratava da hortaliça
E rezava a Deus-Padre Omnipotente
Vários trechos latinos,
Salvando desta forma, juntamente,
As ervilhas, as almas e os pepinos.

E já de longe ia bradando:

"Olé!
Dormiram bem? Estimo
Eu lhes darei o mimo,
Canalha vil, grandíssima ralé!
Então vocês, seus almas do Diabo,
Julgam que isto que era só dar cabo
Da horta e do pomar,
E o bico alegre e estômago contente,
E o camelo do cura que se aguente,
Que engrole o seu latim e vá bugiar!
Grandes larápios! Era o que faltava
Vocês irem ao milho,
E a mim mandar-me à fava!
Pois muito bem, agora que vos pilho
Eu vos ensinarei, meus safardanas!
Vocês são mariolões, são ratazanas,
Têm bico, é certo, mas não têm tonsura
E, nas manhas, um melro nunca chega
Às manhas naturais de um padre-cura.
O melhor vinho que encontrar na adega
É para hoje, olé! Que bambochata!
Que petisqueira! Melros com chouriço!
E então a Fortunata
Que tem um dedo e jeito para isso!
Hei-de comer-vos todos um a um,
Lambendo os beiços, com tal gana enfim,
Que comendo-vos todos, mesmo assim
Eu fico ainda quase em jejum!
E depois de vos ter dentro da pança,
Depois de vos jantar,
Vocês verão como o velhote dança,
Como ele é melro e sabe assobiar!"

Mas nisto o padre-cura, titubeante,
Quase desfalecendo,
Atónito de horror, parou diante
Deste drama estupendo:

O melro, ao ver aproximar o abade,
Despertou da atonia,
Lançando-se furioso contra a grade
Do cárcere. Torcia,
Para os partir os ferros da prisão,
Crispando as unhas convulsivamente
Com a fúria dum leão.
Batalha inútil, desespero ardente!
Quebrou as garras, depenou as asas
E alucinado, exangue,
Os olhos como brasas,
Herói febril, a gotejar em sangue,
Partiu num voo arrebatado e louco,
Trazendo, dentro em pouco,
Preso do bico, um ramo de veneno.
E belo e grande e trágico e sereno,
Disse:
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa mas a alma voa
Ó filhos, voemos pelo azul! Comei!" -

E mais sublime do que Cristo, quando
Morreu na Cruz, maior do que Catão,
Matou os quatro filhos, trespassando
Quatro vezes o próprio coração!
Soltou, fitando o abade, uma pungente
Gargalhada de lágrima, de dor,
E partiu pelo espaço heroicamente,
Indo cair, já morto, de repente
Num carcavão com silveiras em flor.

E o velho abade, lívido d'espanto,
Exclamou afinal:
"Tudo o que existe é imaculado e é santo!
Há em toda a miséria o mesmo pranto
E em todo o coração há um grito igual.
Deus semeou d'almas o universo todo.
Tudo que o vive ri e canta e chora
Tudo foi feito com o mesmo lodo,
Purificado com a mesma aurora.
Ó mistério sagrado da existência,
Só hoje te adivinho,
Ao ver que a alma tem a mesma essência,
Pela dor, pelo amor, pela inocência,
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
Só hoje sei que em toda a criatura,
Desde a mais bela até à mais impura,
Ou numa pomba ou numa fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!
............................................................
Ah, Deus é bem maior do que eu julgava"

E quedou silencioso. O velho mundo,
Das suas crenças antigas, num momento,
Viu-o sumir exausto, moribundo,
Nos abismos sem fundo
Do temeroso mar do Pensamento.
E chorou e chorou A Igreja, a Crença,
Rude montanha, pavorosa, escura,
Que enchia o globo com a sombra imensa
Dos seus setenta séculos d'altura;
O Himalaia de dogmas triunfantes,
Mais eternos que o bronze e que o granito,
Onde aos profetas Deus falava dantes,
Entre raios e nuvens trovejantes,
Lá dos confins sidérios do infinito;
Esse colosso enorme, em dois instantes
Viu-o tremer, fender-se e desabar
Numa ruína espantosa,
Só de tocar-lhe a asa vaporosa
Duma avezinha trémula, a expirar!
.................................................
.................................................
E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:
"Há mais fé e há mais verdade,
Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!..."
Termino com uma frase, que estava na mesma página do poema:
Duas coisas são infinitas: O universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.
Albert Einstein

Metade, um poema dito por Oswaldo Montenegro



«Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade…
também».




Como se nada estivesse para acontecer, vamos, estamos. Mas, e agora?

FMI prevê cortes dolorosos e por muito tempo

O director-geral do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, disse à TVI que Portugal vai sofrer cortes e durante muito tempo.A partir de Washington, o responsável do FMI declarou que "não vai ser rápido, nem fácil". Mais, "é um processo mais longo, vai demorar mais tempo, mas é mais realista ", prosseguiu, sublinhando que um país não pode gastar mais do que aquilo que tem. Sem querer apontar o dedo a ninguém, avisou que "esse foi o caso de Portugal".

E agora, José?

A festa acabou,
A luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?


Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

JOSÉ, de Drummond de Andrade

Dia Mundial da Poesia, 2011

Uma janela em Alpiarça.

Hoje, o primeiro dia de Primavera, está a sê-lo, não só no calendário. Dia de comemorar também «O Dia Mundial da Poesia, criado na XXX Conferência Geral da UNESCO, em 16 de Novembro de 1999. O propósito deste dia é promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo.» In Wikipédia.

Escolhi de Gedeão, «Dez réis de esperança». Porque sim.

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue

As mãos de cada um

Mãos calejadas. Mãos de trabalhar a terra. Mãos de Antero. Lembrei-me de um poema de Eugénio de Andrade, intitulado «Desde a Aurora».

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória
procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o
vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago
a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.

In «Obscuro Domínio».

Ouve e chora

This is my song, Oh God of all the nations,
A song of peace for lands afar and mine.
This is my home, the country where my heart is;
Here are my hopes, my dreams, my sacred shrine.
But other hearts in other lands are beating,
With hopes and dreams as true and high as mine.

Esta é a minha canção, ó Deus de todas as nações,
uma canção de paz para terras distantes e para a minha.
Esta é a minha casa, o país onde o meu coração está;
Aqui estão minhas esperanças, meus sonhos, meu sagrado santuário.
Mas outros corações em outras terras estão batendo,
com esperanças e sonhos tão verdadeiros e elevados como o meu.


My country’s skies are bluer than the ocean,
And sunlight beams on cloverleaf and pine.
But other lands have sunlight too and clover,
And skies are everywhere as blue as mine.
Oh hear my song, oh God of all the nations,
A song of peace for their lands and for mine.

Os céus do meu país são mais azuis que o oceano,
e a luz solar incide nas folhas de trevos e pinheiros.
Mas outras terras têm luz solar também, e trevos,
e céus estão em toda a parte azuis como o meu.
Oh, ouça minha canção, ó Deus de todas as nações,
uma canção de paz para a terra dos outros e para a minha.


May truth and freedom come to every nation;
may peace abound where strife has raged so long;
that each may seek to love and build together,
a world united, righting every wrong;
a world united in its love for freedom,
proclaiming peace together in one song.

Que a verdade e a liberdade possam vir para cada nação;
Possa a paz abunde, onde a disputa assolou tanto tempo;
que cada um possa buscar o amor e construir juntos,
um mundo unido, corrigindo todos os erros;
um mundo unido no seu amor à liberdade,
proclamando juntos a paz em uma canção.

Tradução livre.

Deux jours à tuer - o filme - e o poema final


Ontem à tarde, uma tarde de calor, sentada de novo em frente ao pequeno ecran, pois onde (?!)assisti a mais um filme num dos TVCine. Valeu a pena. Dramático, para mim com um final inesperado - Deux jours à tuer. Deixámos de falar, de ler, de ouvir e de pensar «em francês». É pena. Afinal, como povo, temos afinidades culturais, para além de sermos latinos. Gostamos da família de uma maneira muito peculiar, discutimos bastante e quando estamos mal, procuramos as nossas raízes. Já depois de «le fin», continuei a remoer a estória, emocionada. Enquanto as legendas do elenco passavam rápido, ouvi uma voz, de timbre forte, dizer um poema. Apareceram legendas por cima das legendas que foram traduzindo esse poema, para português. Ainda bem. O meu francês anda um pouco enferrujado. Que belo poema.
Hoje procurei a voz. Era de Serge Réggiani, que entretanto já faleceu com 82 anos de idade. O poema «LE TEMPS QUI RESTE». «O peso do tempo sente-se na voz "arrastada" do cantor e a incerteza do tempo que ainda lhe resta - anos, dias ou horas...»(*) dá-me que pensar...

Fica aqui, para ajudar quem precisar. Eu preciso.

LE TEMPS QUI RESTE

Combien de temps...
Combien de temps encore
Des années, des jours, des heures, combien ?
Quand j'y pense, mon coeur bat si fort...
Mon pays c'est la vie.
Combien de temps...
Combien ?

Je l'aime tant, le temps qui reste...
Je veux rire, courir, pleurer, parler,
Et voir, et croire
Et boire, danser,
Crier, manger, nager, bondir, désobéir
J'ai pas fini, j'ai pas fini
Voler, chanter, parti, repartir
Souffrir, aimer
Je l'aime tant le temps qui reste

Je ne sais plus où je suis né, ni quand
Je sais qu'il n'y a pas longtemps...
Et que mon pays c'est la vie
Je sais aussi que mon père disait :
Le temps c'est comme ton pain...
Gardes-en pour demain...

J'ai encore du pain
Encore du temps, mais combien ?
Je veux jouer encore...
Je veux rire des montagnes de rires,
Je veux pleurer des torrents de larmes,
Je veux boire des bateaux entiers de vin
De Bordeaux et d'Italie
Et danser, crier, voler, nager dans tous les océans
J'ai pas fini, j'ai pas fini
Je veux chanter
Je veux parler jusqu'à la fin de ma voix...
Je l'aime tant le temps qui reste...

Combien de temps...
Combien de temps encore ?
Des années, des jours, des heures, combien ?
Je veux des histoires, des voyages...
J'ai tant de gens à voir, tant d'images..
Des enfants, des femmes, des grands hommes,
Des petits hommes, des marrants, des tristes,
Des très intelligents et des cons,
C'est drôle, les cons ça repose,
C'est comme le feuillage au milieu des roses...

Combien de temps...
Combien de temps encore ?
Des années, des jours, des heures, combien ?
Je m'en fous mon amour...
Quand l'orchestre s'arrêtera, je danserai encore...
Quand les avions ne voleront plus, je volerai tout seul...
Quand le temps s'arrêtera..
Je t'aimerai encore
Je ne sais pas où, je ne sais pas comment...
Mais je t'aimerai encore...
D'accord ?

(*) Roubado de http://quantotempotemotempo.blogspot.com/

Mar chão e vento de feição


Navio Republicano Português Sagres ou Navio Escola Sagres? As duas coisas.
Uma vez por ano e lá ia. Durante 3 meses ficávamos sem ele. O Senhor meu Pai começou a sua vida de Marinheiro na Sagres e terminou a sua vida de mar como o homem do apito, ou seja, como Mestre do Navio.
Esta é a primeira vez que Sagres vai fazer uma viagem à volta do Mundo. Quase 1 ano a pavonear-se pelos Oceanos, o vaidoso. Imagino quem o espera nos diversos portos por esse mundo fora. Inesquecível estar num qualquer porto e olhar e ver esse veleiro de velas brancas, com as Cruzes de Cristo encarnadas, enfunadas, em todo o seu esplendor, a atracar. O movimento braçal dos marinheiros, a subida aos mastros, as velas a descerem, as vozes, um apito a comandar estas manobras ... só estando lá a assistir, para recordar toda a vida. E depois de atracado e amarrado ao cais, subirmos as escadas e entrar, pés no convés do navio. E mexer no cordame, nas madeiras envernizadas, nos latões. Descer e subir escadas de degraus estreitos e íngremes, mãos agarrando ambos os corrimões, em corda. «Desce como sobes, custa menos ... »
Inspirar e deixar que a imaginação nos leve por instantes, de viagem...

Lembrei-me de Fausto, que escreveu:

Já tenho a vela enfunada / Marrano sem vergonha / Judeu sem coisa sem fronha / Vou de viagem ai que largada / Só vejo cores ai que alegria / Só vejo piratas e tesouros / São pratas são ouros / São noites são dias // Vou no espantoso trono das águas / Vou no tremendo assopro dos ventos / Vou por cima dos meus pensamentos / Arrepia / Arrepia / E arrepia sim senhor / Que vida boa era a de Lisboa // O mar das águas ardendo / O delírio dos céus / A fúria do barlavento / Arreia a vela e vai marujo ao leme / Vira o barco e cai marujo ao mar / Vira o barco na curva da morte / Olha a minha sorte / Olha o meu azar.

Que os ventos e marés lhes sejam favoráveis. Que tragam estórias para contar, a quem os gostar de ouvir, até morrerem de velhice.

E mais esta

A foto é minha, tirada em 2008, mês de Junho, na Manta Rota. Não sei porque deram à costa sem vida, dezenas ou centenas de estrelas do mar, ainda jovens.
A canção é de 1952, um ano antes de eu nascer. Por este motivo, relembro-a. Era cantada lá em casa. A intérprete é a brasileira Dalva de Oliveira.

Um pequenino grão de areia
que era um pobre sonhador,
olhando o céu e viu uma estrela
e imaginou coisas de amor...

Passaram anos, muitos anos
Ela no céu, ele no mar,
dizem que nunca o pobrezinho
pôde com ela se encontrar.

Se houve ou se não houve alguma coisa entre eles dois,
ninguém sabe até hoje explicar
O que há de verdade é que depois, muito depois,
apareceu a estrela do mar...






Gostou? Então clica aqui e escuta mais!

Esta coisa da Internet é um bem precioso. Encontrei um link - http://www.youtube.com/watch?v=EhHKTBOsBPI - que nos leva a ouvir e a ver Dalva de Oliveira. Como eram todos magrinhos nessa altura. Porque seria?

O meu presépio e um poema

NATAL DE QUEM?

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.

– Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!

– Está bem, eu sei!

– E as garrafas de vinho?

– Já vão a caminho!

– Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?

– Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:

– Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
– Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.

E Cristo Menino
A fazer beicinho:
– Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:

- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!


Poema de João Coelho dos Santos, in “Lágrima do Mar” - 1996
Recebi esta prendinha por e-mail. Não posso deixar de o partilhar convosco.
Obrigada Ana Filipa.

BOAS FESTAS

Poema de Vinicius de Morais, interpretado por Camila Morgado e Ricardo Blat. Trecho extraído do filme de Miguel Faria Jr. POEMA DE NATAL

«Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos

–Por isso temos braços
longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos

–Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai

–Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte

–De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem;
da morte, apenas nascemos,
imensamente.»

FELIZ NATAL PARA TODOS VÓS, OS QUE ME VISITAM

Momentos

.../
E o que é certo
é que os que têm quase tudo
devem tudo aos que têm muito pouco
mas fechem bem esses ouvidos
que o melhor ainda é ser mouco
isto diz paternalmente
quem acha que é ponto assente
que isto nunca vai mudar
e que o melhor é começar a apanhar umas chapadas
a vida é feita de pequenos nadas *

/...

*A vida é feita de pequenos nadas, de Sérgio Godinho

Porque a vida é feita de momentos. De instantes. De pequenos nadas.
Não, não é trigo nem restolho. Não estamos no Alentejo. Estamos nas Beiras. Serra da Lousã.
Aqui, o ciclo da vida vegetal ainda é vida. É duro trabalho. Plantar. Colher. Ofertar. Saborear e agradecer.

.../
Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração *

*Restolho de Mafalda Veiga

Bodas de coral

Para nós, pelos 35 anos de vida juntos.
.../
Que eu lhe possa dizer do amor (que tenho)
que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure.*
* Vinicius de Moraes: Soneto de Fidelidade in Poesia completa e prosa "A saudade do cotidiano" 1998.




Recado a Lisboa

Lisboa, querida mãezinha / Com o teu xaile traçado / Recebe esta carta minha / Que te leva o meu recado / Que Deus te ajude Lisboa / A cumprir esta mensagem / De um português que está longe / E que anda sempre em viagem

Vai dizer adeus à Graça/ Que é tão bela, que é tão boa / Vai por mim beijar a Estrela / E abraçar a Madragoa / E mesmo que esteja frio / E os barcos fiquem no rio / Parados sem navegar / Passa por mim no Rossio / E leva-lhe o meu olhar

Se for noite de São João / Lá para as ruas de Alfama / Aquece o meu coração / No fogo da tua chama / Depois leva-o pla cidade / Num vaso de mangerico / Para matar a saudade / Nesta saudade em que eu fico.

Vai dizer adeus à Graça / Que é tão bela, que é tão boa / Vai por mim beijar a Estrela / E abraçar a Madragoa /E mesmo que esteja frio / E os barcos fiquem no rio /Parados sem navegar /Passa por mim no Rossio /E leva-lhe o meu olhar

LETRA: João Villaret MÚSICA: Armando da Câmara Rodrigues

Recebi via e-mail de G. Pinto. Obrigada.

Política, Portugal, Poema

Suspiro por outros tempos que hão-de vir. Que mal me sinto viver no meu País no tempo actual. Quanto mais se comunica, menos se informa, portanto mais se desinforma. Mas um bem hajam. Sem liberdade de imprensa, não há democracia.

Ora bem. Estou a viver um tempo de ausências. Das que me assustam mais: Ausência de palavra; Ausência de vergonha; Ausência de carácter; Porquê? Que ânsias estas de percorrer caminhos paralelos que leis e normas sociais condenam. Onde estão os Homens sérios? César tinha uma mulher que para além de séria tinha de parecer ser séria! Estes 'apontados de' nos tempos que correm, são uns infelizes. Mas não se enxergam. Eu?! Eu?! São cabalas meus senhores. Invejas do que consegui com o meu paleio. Coitadinhos dos Homens-políticos do meu País. Trocaram o ser pelo parecer. Que exemplos meus senhores.

Cá estamos de novo em ano de eleições. Para o Parlamento europeu e para o nosso Par-lamento. Por mim desejo muuuito que o senhor Paulo Rangel vá. Saia de cena e leve a sua voz, os seus gestos, a sua pessoa. Ui! Vá e junte uns tostões. Não gaste tudo! Olhe que por cá, a vida está má!Vá aprender a ser oposição e a ter ideias e a concretiza-las.
Agora nós, por cá. A cada quatro anos surge uma possibilidade de renovação nos cargos políticos. Mas que políticos? Para estas eleições desejo que, à falta de melhor, ganhe e governe quem tiver mais votos. É isso. E é muito bom este presságio. Ele há por aí países onde isto não acontece.
Imagino: Desempregados inscritos nos partidos, de braços no ar e pontas de pés: Arranja-me um cargo! Pode ser na tua empresa com certeza eu dava conta do recado e pra ti era uma sossego. Diminuíam as estatísticas do desemprego. Algumas destas palavras são de Sérgio Godinho, lembro. E o raciocínio segue: - cada um desses cargos também traz consigo a possibilidade de serem nomeados outros tantos. Ele é secretários-de-secretários-de-secretários. E há por aí tanta gente sem fazer nada; - E mais os que ficaram para trás, porque os votos não chegaram para os eleger de novo. Coitados? Não! Os mais notórios, os que marcaram o seu nome na carreira política porque tiveram uma intervenção com responsabilidade, a de governar em algum tempo, bem ou mal, vão aparecendo, mais cedo ou mais tarde, participantes em escabrosas telenovelas, em directo na televisão.

Quem é esta gente que actualmente nos representa no hemiciclo de S. Bento? Foram à vida deles, como antes de serem políticos? Não. Andam por lá... os 'novos funcionários públicos com cargos' em empresas públicas. Maioritariamente advogados. Todos se conhecem, trocam de poleiros (agora é PS, agora é PSD) só que ninguém os apanha com a boca na botija, se eles próprios não se denunciarem. São os Pares. São os idênticos. Não ponho a mão no fogo por nenhum deles. Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. Verdades? O que é isto de verdade? Mesmo quando dão azo a serem difamados na praça pública, eles não querem largar o osso! Pelo menos para limparem a baba dos queixos ou o suor da testa! Não. Continuam lambuzados, são sujeitos a interrogatórios pelos pares e juram a pés juntos que não roeram o osso, que não roeram o osso, pela santa mãezinha deles ... e por lá andam mais um mês, mais uns dias. Afinal tudo somado, no fim dá cá uma reforma! O senhor PR passa-lhes a mão na cabeça - já foram pares, eles conhecem-se, eles juraram que não roeram o osso, o PR acredita - e? Nada. Pelo menos até hoje.

Entretanto é ouvi-los nas arruadas, nos Mercados. É outra a telenovela, mas as vítimas são as mesmas. Nós. Precisam do nosso voto agora. Mas não é sempre. É só quando temos capacidade... de não fazer má figura porque não nos ensinaram o que é isso de estar na europa dos ... não sei quantos. Enfim.

Saravá meu pai, como dizem os nossos irmãos em língua. Nada acontece. Só ruído mediático. Cansa. Ufa!
Aqui estou eu, divertidíssima, na minha vidinha singela de dona de casa, a dar-me ares de entender alguma coisa destas coisas, como se não tivesse mais nada para fazer. Querem o meu voto? Ora tomem! No poema a seguir.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

Sou um ser único /
Somos todos seres únicos /
Por que então esta vontade /
De ser igual a todo mundo /
Por que seguir as regras /
Estabelecer parâmetros /
E marginalizar o que é diferente? /
Hoje não há distância /
Que não seja vencida /
Todos os lugares do mundo /
Estão povoados /
As cidades todas se parecem /
As pessoas todas se massificam ... /
Falam do povo, como se o povo /
Fosse um ser gigante /
Esquecem /
Que ele cada indivíduo /
Com suas vontades e desejos /
Com seus sonhos e medos... /
É preciso se sentir absoluto /
É preciso dar asas à imaginação /
É preciso dar ao homem liberdade /
De ser, sentir, estar, viver... /
Ou corremos o risco /
De nos tornarmos cópias /
Fantoches /
Nas mãos de alguns artistas /
Que loucos, traçarão o roteiro /
E encenarão a história /
Das nossas vidas...


Poema de Nydia Bonetti, retirado daqui.

Alusão

Embora num contexto mais abrangente eu me sinta na obrigação de ser feliz, não estou esquecida de Marta, de Júlia, de Zé, de Marco, que neste momento e mais umas semanas vão estar de coração nas mãos, como sui dizer-se. Ninguém merece.
O meu desejo é de boa sorte. Porque sorte tem um pouco a ver com a busca da felicidade. E Fé é coisa que não sinto. Fui a Broken Mirror copiar o poema.

A sorte só favorece quem / Na vida uma boa estrela tem / Mas com fé até
parece / Que a vida nos fica / mais bela também.
Maestro Jaime Mendes1903 -1997

A felicidade

A busca da felicidade. É uma busca. É diária. Nas pequenas coisas encontrá-la. Na minha vida simples, o simples alimentar do Beta-Man que me olha no seu meio aquático a dar à barbatana me reconhece como a que o alimenta. O meu olhar e ver e fazer festas e brincar e falar com a minha Spitz-Bianca, que me retribui exactamente o mesmo. O pensar que mãe, marido, irmão, sobrinhos, afilhadas, cunhados, sogra, primas, primos, tio, compadres ... estão por cá e dão para os seus gastos. O preparar das coisas da casa (eu sou dona de casa). O ler, o escrever, o ouvir música. O tratar das plantas. O saber dos vizinhos mais amigos. O saber dos amigos reais e virtuais. O estar disponível para o que consigo. O saber evitar o que não posso mudar... Eu tento encontrá-la onde estou. Ela, a Felicidade. Mas tenho de ser uma pessoa simples e ir vivendo.
O vento sopra lá fora, e muito. Se não houvesse tanto, eu estaria mais feliz :)
Por falar de felicidade, um poema de Vicente de Carvalho


Essa felicidade que supomos, /árvore milagrosa que sonhamos / toda arreada de dourados pomos, / existe, sim; mas nós não a alcançamos, / porque está sempre apenas onde a pomos, /e nunca a pomos onde nós estamos.
Pois.