Uma estória minha.

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Eu fumei tabaco. Desde os meus dezoito aos trinta e muitos. Graças a uma carraça infectada que me picou nas costas, deixei de fumar. Porque quis. Verdade mesmo! Fiquei em casa, de atestado médico. Parecia uma gripe daquelas muito fortes. Doía tudo o que era articulação. Passava os dias a tremer de frio e a mudar de roupa, encharcada que estava de suor. Depois vinham os calores de delirar. Nenhum medicamento receitado fazia efeito. Nada fazia baixar a febre. Até que o braço direito custou a baixar. Parecia ter qualquer corpo estranho na axila. Encontrei, por palpação no duche, um caroço. Ai! Apresentei-me no meu serviço e pedi auxílio. Lembro Dra. Anabela, disponível para me consultar. Pareceu-me preocupada porque chamou o chefe e o director do nosso serviço. Ajudaram-me a despir e os três identificaram uma picada nas minhas costas. Estava com febre escaro-nodular. Por culpa minha, levou mais de 3 semanas a identificar. Voltei para casa medicada, mas não apresentei melhoras. A bicha era peçonhenta mesmo. Por vontade própria, pedi para marido me levar às urgências de Santa Maria. Não me aguentava em pé, tremia como varas verdes. Atenderam-me de imediato. Deitaram-me, ligaram-me a um aparelho de electrocardiograma e a soro e a oxigénio. Mas quase sentada, senão não conseguia inspirar nem expirar decentemente. Mais tarde, duas auxiliares ajudaram-me a tirar a roupa que levava vestida que foi colocada dentro de um saco e entregue a marido. Deram-me a vestir uma bata (verde?) aberta atrás e deitaram-me numa maca. Sem muitas palavras picaram-me no pulso ... Doeu muito. Durante a noite fui assistindo ao vai vem das outras desgraças que entraram para as urgências. Sempre dava para pensar que havia outros em pior estado. Mais tarde, senti-me embrulhada e levaram-me por aqueles corredores fora, a tremer, a tremer ... O tecto e as luzes, o som e o frio que eu sentia ... parecia um daqueles filmes onde prisioneiros torturados ou loucos são encaminhados de um lado para o outro.... Um elevador abafado. Noutro piso, outros cheiros. Li UTIC Arsénio Cordeiro. Estou assim tão mal? Eles sorriram - não! - e mudaram-me da maca para a cama. Aí chorei. E chorei. Durante 5 dias destilei na cama, dentro de um T-zero com vidro à volta. De cada vez que a técnica vinha colher sangue, eu gemia. Houve visitas. Familiares mais próximos, o meu cardiologista, um médico do meu serviço. Bem haja Dr. Jaime. Graças aos febrões que iam e vinham, aos litros de água que *destilei*, ainda hoje o recordo o aroma do meu T-zero. Nauseabundo. A nicotina foi saindo pelos poros. Litros de soro entraram para lavar o meu sangue e saíram também pela urina, que a ela não cheirava. Os enfermeiros tratavam de mim com compreensão. Cheiro tão mal, dizia eu. Não! E davam-me banho na cama. Esgotou o antibiótico na Farmácia do Hospital, ouvi. O surto de carraças infectadas fez estragos naquele ano. Mas o coração aguentou. Os pulmões limparam. Ao sexto dia, magérrima, não conseguia por-me em pé. Reaprendi a andar. Saí deste pesadelo. Respirava melhor. Sentia-me leve e solta. Tive alta.

Em casa, o tabaco deixado em cima da mesa permaneceu. Olhei-o. O azulinho Português Suave com filtro. Com um isqueiro BIC amarelo em cima. Aproveitamos e deixamos de fumar, disse marido. Anuí. Até hoje. Nem ele, nem eu pegámos num único cigarro que fosse. Força de vontade. Muita. Ao trabalho que se faz tarde. Durante meses dei comigo à procura nos bolsos da bata de algo que não encontrava. Dei comigo a revistar a mala de mão à procura de algo que já não estava presente na minha vida. Dei comigo a mandar vir com todos os que entravam no gabinete de cigarro na mão. Mas não voltei a fumar. Recaída? Uma, quando olhei uma prateleira e vi um maço de Moore. Ui que vontade de fumar uma cigarrilha longa, fina, castanhinha. Ele disse-me não compres. Não comprei. Voltar atrás para quê? A partir daí, tudo o que surgiu para me apoquentar a saúde, deu para aguentar. Veio uma asma. Não alérgica a nada de concreto, mas a tudo, ao ambiente. Porque não fumava há anos, ainda por aqui ando. Dá para os gastos, como costumo dizer.

O mesmo não posso dizer de meu primo Miguel. Tem 60 anos. Fumador desde os 12 anos, deixou de fumar há poucos. Não aguentou uma pneumonia (?). Ainda está internado com um pulmão a menos e com um mau prognóstico. Vai ter alta. Vai para casa. E depois? E depois?

Deixo aqui o meu testemunho. No Dia Internacional dos Enfermeiros. Um obrigada a todos os enfermeiros. Se eu consegui, tu consegues. Deixa de fumar. Se achares que vale a pena.

1 comentário:

Tânia Defensora disse...

Oi Guidinha!
Visitei todos os seus blogs, mas deixo comentário só neste.
Li tua história de fumante. Meu marido é e não cosnegue deixar o cigarro, mesmo depois que o pai morreu de câncer num pulmão e enfizema no outro.
Considero-a uma heroína.
Fica em paz e obrigada pela visita.