Há dias assim

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Fomos a Alpiarça. Um passeio giro. O Ribatejo está verdíssimo, com as culturas do arroz. Ainda se vêem bancas de melão, mas poucas, pela Nac 118. Chegados a Almeirim dirigi-mo-nos ao Pinheiro. Fechado para férias, no mês de Julho. Ora bolas. Perguntámos por um idêntico e aconselharam o Paulos. O bacalhau estava um bocadinho apetitoso, mas as mães acharam que se comia. O ambiente era agradável. Quando saímos para a rua, levámos um murro de calor. Nem deu para uma voltinha. Seguimos para a feira do melão. Chegados à vila de Alpiarça, a Casa dos Patudos e o Museu de José Relvas apresentaram-se à nossa esquerda. E a feira? Nada indicava aos visitantes de longe, o local da mesma. Como quem tem boca vai a Roma, parámos e lá houve uma senhora que invertêssemos a marcha e que virássemos na esquina do millenium, que sempre em frente e perto.
A feira estava montada num local arborizado, em terra batida, junto a um rio. Era o Parque do Carril. Pouca gente, sons da minha calça abotinada, meu sapatinho de bico, carros de melões, melancias e meloas, cão em terra areada, calor e cheirava a sardinha assada.
Dirigi-me ao som. Preparei o telélé. Junto a uma banca com trajos regionais fiz poiso e comecei a filmar um jovem à esquerda e um grupo de outros jovens um pouco à direita. Pareciam estar a treinar para qualquer coisa mais séria. De repente, uma voz feminina fez-se ouvir e pelo canto do meu olho deu para ver que se dirigia à minha pessoa.
- Eu conheço a sua cara!
quê? pensei, mas respondi
- Ando por aí, ando por aí
e o filme já era. e vai ela
- Não, não é de cá e eu também não sou
sem saber o que dizer por causa da filmagem, repliquei
- Então é de onde?!
- De lisboa
ai ai que isto já não fica nada de geito e respondo
- Eu também
e ela, com alguma certeza na voz
- Trabalhou no IPO
deixa lá o filme, mas quem é ela?!
- Trabalhei
olhámo-nos, perdi o alvo e ainda ouvi ela dizer
- E aquela cara também.
E a outra. Referia-se a Marido e Sogrinha.
Desliguei o telélé. Dirigi-me a ela de braços abertos «Olha a enfermeira Margarida! Há quantos anos! Reconheci-te pelos olhos...». Vai ela «Eu é que te reconheci. Que fazem por aqui?» Vimos aos melões! Abraços, beijinhos e o Pedro também anda por aí. O Pedro?! Ai, o Pedro, que Pedro? Quando o vi aproximar-se fez-se luz. Olha o Pedro! Mais beijinhos, mais sorrisos e foi bom. Mais de 20 anos passaram...
Enquanto trocávamos conversas diversas sobre o que era a nossa vida, o melão era o fito de Marido. «Onde está o melhor melão?» Eram tantas as camionetas. «Vão ali àquela banca e provem. É todo de Alpiarça, não há cá nada de Almeirim.»
A eterna rivalidade entre dois vizinhos: o meu é melhor que o teu.
«Fiquem que daqui a pouco vai haver festa...» Não podíamos. «Vamos aos melões e umas duas melancias, que só eu sou apreciadora e só tenho duas mãos. E está muito calor, não dá para ficar...»
Troca de números de telefone e tínhamos mesmo de seguir viagem. Um clic ao casal, despedidas. Até.
Ficou este filminho, de fraca qualidade técnica, mas de conteúdo inigualável e inesperado.
Às vezes questiono-me sobre esta mania de nos dirigir-mos na rua a pessoas que passaram parte das suas vidas no mesmo local de trabalho que nós.
Nas mais diversas profissões e serviços que aquele hospital ainda é grande. Médicos, enfermeiros, assistentes sociais, secretariado ou auxiliares são olhados na rua e de repente indagados «lembra-se de mim?». Meio atrapalhados ficamos porque por vezes a memória é lenta na procura dos traços mais familiares. As pessoas mudam a sua fisionomia e o seu corpo com o passar dos anos. Por vezes é a voz que as identifica. Porque os nomes, ai os nomes, é o pior. No entanto, se dissermos o «nome de guerra» e local onde trabalhámos, dá-se o clic.
A troca de momentos numas frases, fazem-me ficar feliz. E a memória voa, lá atrás no tempo e durante uns momentos fico por lá, naquele espaço bom onde trabalhei.
O nosso IPO de Lisboa foi um local onde o estar vivo e a mexer me marcou, nos marcou penso, a todos os que lá trabalharam. Ainda por cima sou da geração que viveu e sentiu o Abril de 74 como uma porta aberta a outros mundos, a outra maneira de ser e de estar nesta vida. Que estórias para contar. Que mudanças ultrapassámos. Que ilusão todos estes anos, penso agora.
Aquela casa tem um lema, o de Francisco Gentil: o doente em primeiro lugar. Não o conheci pessoalmente, claro, mas é minha convicção de que ainda continua a ser assim. O lema.
O reconhecimento, o respeito e o convívio ... esses não sei.

A festa do melão continuou. Fotos buscadas aqui. E Pedro guardou uma publicação que um dia destes temos de ir buscar. Saúde Margarida e Pedro!


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