Impotência


Temos diversas famílias de gatos a viver nas traseiras. De vez em quando, vemos que um deles é uma fêmea porque transporta um barrigão. E de repente (o tempo voa) ouvem-se miados de miudagem e prestando melhor atenção, lá estão eles, de rabito alçado ensaiando as primeiras saídas do sítio onde nasceram. São dois desta vez. Já os tinha avistado, depois de regressar de férias.

Estas fotos são de ontem. Durante a manhã, estavamos à volta com o conteúdo da nossa dispensa, quando ouvi um miar aflitivo, repetitivo, que me chamou a atenção. Fui à janela. De início, não reconhecia o local de onde aquele miar vinha, mas depois dei com a coisa e entendi a estória. Um gatinho estava preso pela cabeça, numa grade. O que ele esperneava e fazia força para se soltar. A mãe gata tinha iniciado a volta a casa através das grades. Treinava as crias a entrar no barracão abandonado, através das grades. Só que calculou mal o salto e aconteceu o pior. O gatinho bem tentava soltar-se mas a grade era muito estreita. A cabeça estava presa e nem entrava, nem saía. Chamei Marido e fui buscar a máquina fotográfica com o zoom. Aproximei e confirmámos. O bichinho estava mesmo preso. E os miados eram cada vez mais fraquinhos, mas não menos aflitivos. Mãe gata olhava e saltou duas vezes para o lado do filhote. Ouvia-se um diálogo entre os dois. Os miados eram diferentes. Mas ela era impotente naquela situação. Foi muito penoso.

Se estivéssemos noutro País (no Reino Unido, por exemplo), telefonaria para a polícia e eles se encarregariam de o retirar, recolher e tratar, se preciso fosse. Mas por cá, penso que é diferente. Em tantas janelas viradas para aquele sítio, não se ouvia nem via ninguém a comentar, ou a tomar qualquer iniciativa para aliviar o sofrimento daquela criaturinha.

Marido, tens de lá ir, pedi. Levas uma luva, porque eles arranham. Qual luva qual quê. Lá foi Marido vestir-se, descer a rua, cortar para as traseiras dos prédios e chegar ao barracão. Mãe gata, assim que o pressentiu, afastou-se para junto da outra cria, escondidas ambas nas ervas. Marido esticou o braço e agarrando o gatinho por detrás do pescoço içou-o para a parte mais larga das grades. Coitadinho. Esperneou contra a parede, miou aflito, mas conseguiu soltar a cabeça e saltar lá para dentro.

Eu, de tão pasmada que estava com o desenrolar da cena, nem um disparo fiz. Não temos foto da salvação deste gatinho. O bichinho urinou-se todo, com a força que fez para se soltar, disse Marido quando regressou a casa, meio a sorrir, meio emocionado. Abraçá-mo-nos.

Decerto não controlamos o que acontece, mas podemos intervir para minorar o sofrimento, quer seja humano, quer seja animal. É preciso é estarmos atentos e interessar-mo-nos. O dia feriado não poderia ter começado da melhor maneira.

2 comentários:

Cris disse...

Tierna historia Guidinha, muy buena acción de tu marido, me imagino la emoción de los dos al presenciar este final feliz. Disculpa pelo espanhol, eu comprendo quase tudo, mais para escrever tenho dubidas e perdo muito tempo para procurar as palavras no dicionário.
Beijo

Sobreiras lugar velho do Esporão disse...

Aquí está uma bela demonstração de amor para com os animais.
Decerto que a Guidinha e seu Marido
depois deste salvamento bem sucedido os vossos corações vibraram de alegria.
Felicidades para ambos

Abraço
Adriano Filipe