Vale Torto, pertinho do céu.


Bi à espera que eu suba por essa escada de dois degraus de pedra, antiquíssimos, que eu trepava tão bem quando era miúda.





O Vale Torto. Lugar na encosta de um dos montes que formam a Serra da Lousã, pertinho do céu e dos Penedos. 
Um abraço para a família de Maria.
Um abraço para a família Simões.

Barroca, o local dos banhos tão perto de casa


Dia de visitar a «barroca». Aquela barroca de que falo com saudades dos molha pés.
A ponte sobrevive sobre as águas límpidas que ainda passam por baixo.


Impossível o molha pés.


Amuei. O acesso está aberto, mas às águas, não cheguei. 
Por invasão da natureza, incúria, desleixo humanos.


Até o moínho. Quantas sacas de milho não moeu...

«Se me saísse o totoloto», ai barroca, que limpeza te mandaria fazer.

Sabem sempre a pouco, os dias de férias.


As férias acabaram. Há dois dias. Marido foi trabalhar. Voltou a rotina. 
Apeteceu-me vir até aqui, reviver e publicar, momentos bons que nos aconteceram.
O dia de hoje, lá em cima na Serra, deve estar como o da foto, quente e com céu azul, tal como aqui, em Lisboa. Já sinto saudades.
O chapéu está guardado mas as cadeiras estão vazias e expostas em frente ao meu Penedo. Sentei-me pouco nelas, reparo agora. Quando os dias são bem aproveitados, bem vividos, ficam na memória. E não conseguimos usufruir, o quanto queríamos, os bens materiais que vamos adquirindo, porque a reforma ainda vem longe e sem data marcada. Ficam, os bens espirituais. Enquanto a memória nos deixar voar, revive-mo-los.
Foram dias de passeios à Pena, Aigra Nova e Comareira. Arganil e Avô. Lousã. Barragem de Santa Luzia e Parque das Merendas da Oitava, Poços e Igreja de Santo António da Neve, com farnel atrás e boa companhia. 
Foram dias de visitas. À Marisa, à Olinda, a umas lojinhas. E a novos conhecimentos. 
A última semana, foi passada em descanso, com tardes à beira do Rio Ceira em Góis, sem muita afluência e com relva, água menos fria que o habitual, mas com as habituais e chatas moscas e os mais de trinta graus centígrados de temperatura. Meti conversa com o Goiense Pedro, a mulher Sandra e a filha Vitória, de três anos de idade, que era mergulhada ao de leve nas águas correntes do rio, ao colo do pai ou às costas da mãe, como um patinho. Mas também fomos incomodados por um grupo de jovens a caminho da adolescência, goienses muito mal educados, que gozavam os últimos dias de férias à solta e sem controlo de adultos, dando mergulhos e incomodando com gritarias, bicicletas e vocábulos impróprios para a sua idade, quem procura paz e sossego. 
Quem os irá «aturar» quando as aulas começarem?!
Olho a foto e despeço-me.

Subida aos Penedos de Góis


Em meados de Agosto, eu assisti a esta viagem, da minha janela na Cerdeira. A subida aos Penedos de Góis. Cerdeirences  de sangue ou de coração, há anos que embarcam nesta aventura. Os mais resistentes, os mais novos, seja quem forem, é preciso é que nunca desistam de nos encantar.
São precisos alguns atributos, que eu não tenho, como força nas canelas...
Subir a 1048 metros de altitude, é obra.
E as nuvens, ai as nuvens, a refrescar. Sentem o aroma das nuvens?
Obrigada MrChaimite pela partilha.
Com este filme, posso ir até lá, quando me apetecer.

A barroca da minha infância

A saudade que tenho da frescura destas águas doces e frias que brotam, um fio, por debaixo duma fraga lá mais acima, se alargam e se estreitam conforme o seu leito feito de pedras, fetos e outras verduras e que chegam aqui. É aqui, na «minha» barroca, que se essas água se expandem, ficam baixinhas. O seu fundo vai subindo de ano para ano, com um acumular de tudo o que as águas trazem e deixam aí depositadas. É um local esquecido. Não por mim. Vai ser bom mergulhar os pés descalços, nas tardes quentes de Verão que ainda estão para vir no próximo Setembro.

Para chegar ao calhau e me sentar - um calhau que rebolou do Penedo há muitos tempos atrás e por ali ganhou cama - sofro um pouco, fazem mossa, as pedras nos meus pés. Ai, ui, algum equilíbrio e sento-me. Sucesso! Olho à volta, aguço o ouvido. Marido na margem seca com Bi ao colo, que a menina não pode molhar-se ... som de águas e pouco mais. Verdes eucaliptos, e mais verdes silvas e moitas e moiteiros e fetos.

Estou ansiosa. Sempre vale a pena ir até lá. Sempre valeu a pena.
Pena mesmo é não ser limpa, aproveitada para todos e por todos...

Estou a 3 dias de mudar de sítio. Lisboa vai de novo encher-se de azáfama. Lá em cima, apenas os silêncios dos que lá moram, o ar respirável, a barroca, o Penedo e pouco mais. Ah! e as courgettes. Já me esquecia das minhas courgettes.

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Estar de bem




Acabada a «reportagem» resumida da subida aos Penedos de Góis (neste momento não disponho de mais material para colocar aqui), volto ao que foi o meu fim de semana prolongado, que soube muito bem e retemperou forças para mais uma quinzena de trabalho. São só mais uns dias, vá lá! Estamos a meio do «meu querido mês de Agosto». Quando Lisboa se encher de novo, os emigrantes voltarem ao País do trabalho, lá vamos nós, gozar as restantes férias do ano para a Serra, de onde não me apetecia nada ter saído ontem. Mas a vida apresenta-se assim. Há que encará-la, não?
Como diz a frase: «Há homens que têm patroa. Há homens que têm mulher. E há mulheres que escolhem o que querem ser» ... eu quero ser e sou a mulher que acompanha o seu homem, que convive com o seu homem e que não depende dele, monetariamente. Daí estar de novo em Lisboa. A escrever, a fazer de dona de casa, enfim, por aqui.
Apesar deste meu feitio se adaptar às circunstâncias, sinto que da minha vida irei sair a perder ... entre o que sou e o que queria ser, vai um passo de gigante. Para me explicar melhor dar um exemplo, eu queria muito ter ficado lá em cima, no meu cantinho na Serra, a cuidar das «minhas» courgettes e dos vasos dos tomates e do pimentinho pequenino e do cantinho das aromáticas, que lá estão, sós, à espera duma pinga de água, que eu sei, vão tendo. Mas não sou eu que dou. E queria. E quando a noite chegasse, arranjaria um local à sombra de qualquer luz, ficaria quieta, namorando o som silencioso da Estrada de Santiago, ouvindo apenas cigarras ou ralos, quiçá um mocho ou uma coruja, que vivem nos pinhais e eucaliptos da band'álem. Olhando para cima, àqueles pontinhos minúsculos a vidas de distância, jogaria palavras para o ar, daquelas que eu tanto gosto: «serena, chama, subtil, perfume, alvo, murmurinho, alma, aia, âmbar, cisne»*. Lembraria momentos, pessoas, vozes que por ali já passaram. Até chegar o primeiro sinal de cansaço, um bocejo, ou porque não, a visita de João Pestana. Sem Internet, sem um risquinho sequer na rede do meu telélé.
Lá, onde a calma reina, eu senti-me-ia bem. Mas não fiquei lá. Segui-o. E vou estando por aqui, fazendo daqui o melhor que puder e souber.


* José Eduardo Agualusa - Milagrário pessoal; pag 58

Já fomos e já voltámos

Silêncio e ralos. O grilo é mais «iii». Andava eu deambulando na rua do meu sítio lá na serra e ouvia dois, pelo menos. Saem à noite debaixo da terra. Nunca consegui olhar nem um! Resolvi ir dar uma volta, rua abaixo, rua acima, que o sono tardava a vir, apesar da viagem de Lisboa e do calor que se fez sentir durante toda a tarde.
Aprecio imenso a noite naquela Serra. Fujo da luz emanada pelos candeeiros da rua, encosto-me a uma parede e olho o céu. Procuro a Estrada de Santiago. Continua a mostrar-se, distante, biliões e biliões de pontos de luz. Sóis e planetas, cometas e estrelas novas, núvens de poeiras, tão belo ... e a nossa lua, cheia, de 13 de Agosto. Eram 23:47 quando a cliquei. Branca e fria, esta é a nossa bela vagabunda dos céus.
Em Góis, José Cid actuava. Havia lá festa e a malta foi. Vão sempre. Afinal estamos no querido mês de Agosto. A aragem fazia chegar aos ouvidos uns vagos sons musicais. À hora que era, de certeza que era ele. São poucos quilómetros, em linha recta, de Góis ao me sítio. E o ar é limpo.
Na manhã de 14, estava combinado uma subida ao Penedo, com ajuntamento e partida da Eira, muito cedo ... eu nunca tive pernas para tal. Fico a gritar cá de baixo e a acenar um pano branco. Faz parte do percurso, durante cerca de duas horas e meia. Gritam de lá, gritamos de cá, para eles se sentirem acompanhados e incentivados. Mas a deitarem-se tarde? Estava-se mesmo a ver. Mas que sim, que sim... eles iriam. Livrem-se de me acordar com as «vuvuzelas», lembrei.
Eu quase que pagava para ver.

Dia de subida ao Penedo


Domingo, 14 de Agosto. 8 e vinte e dois da manhã. Fui à janela. Senti um arrepiozinho. Respirei fundo. Aquela atmosfera lava até à alma.

Mas onde está o Penedo? E sons de vozes? E as vuvuzelas? Nada. Devem ter ido espreitar à janelas e depois de uma noitada Pedro-o-que manda-no-tempo esteve com o grupo. Não estava dia para subir o Penedo, decididamente. Caminha, de novo. Olha que sorte tiveram!

Três foram cedo


Na rua, uns burburinhos. Depois outra voz mais alta: «Atão sempre vão! Ai que malucos!» Abri a porta e deparei-me com três tontos preparados para escalar até aos 1048 metros de altitude que o Penedo apresenta. Bom dia! Parem aí, pedi-lhes. Deixem-me fotografar o momento. Eram 08:47h. Disse-lhes que da estrada do Vale Torto até ao Penedo não se via nada, era uma nuvem pegadinha. Ó! Isso levanta. Vamos mas é, que o sol depois aparece e queremos estar o mais perto possível.
Então, bons trilhos!, desejei-lhes.
A subida deve ser feita imaginando os carreiros entretanto tapados pelo mato. É preciso um pouco da vitalidade e da agilidade de um cabrito para tal «passeio».
Da esquerda para a direita, na foto estão: Mateus (a desejar bos viagem), Jaime Pinto, Alice Pinto e Zahari Markov.
Lá seguiram. Dos do «grupo de ida ao Penedo», nada. Agora era dar-lhes tempo para aparecerem na «bandá'lem», na tal estrada do Vale Torto, para começarem a subida e eu os clics.

Subida ao Penedo de Góis - o começo.

O 1º grupo já ia a subir, algumas vezes tapado pelos calhaus e pelo mato. Estive a fotografá-lo com a máquina do senhor meu Irmão, o Jaime, dado que ele gostava de ter a reportagem completa. Para além disso, o meu telélé não tem hipótese de aproximação condigna com o esforço que eles iam despender.
Entretanto o grupo que se levantou mais tarde por causa da ida à festa a Góis, resolveu meter pés a caminho, perto das 10:00h, um pouco tarde para uma tarefa destas, apesar do Sol brilhante e céu azul que anunciava queimar a pele dos mais encalorados, porque definitivamente a sapeira tinha-se dissipado e o Penedo mostrava-se em todo o seu esplendor convidando os caminhantes a não desistirem.
Continuando eu atenta à minha reportagem fotográfica dos primeiros 3, aguardava a todo o momento a explosão sonora que costuma existir por parte dos que foram e por parte dos que ficam na Cerdeira a vê-los ir, a vê-los progredir na subida, quando mutuamente se vêem.
Fiquei à cóca, a ver quando eles apareciam na estrada do Vale Torto. De repente, o silêncio das 09:50h daquela manhã de Domingo, foi cortada por gritos (uis prolongados), o som de uma concertina ao vivo (Ó minha Rosinha), outros sons trazidos pelo eco, palavras soltas ... e lá estava a bicha de mais de uma dúzia de camisolas coloridas, afugentando cucos, pardais, corvos e outros autóctones com a tradicional berraria de quem se mete por atalhos e se quer fazer ouvir ao longe, por nós, que lhes respondemos também. Ficou gravado o meu grito, que foi espontâneo, e por isso desculpem lá. Também uma frase sentida e um shiu à minha Bi, não fosse ela entrar na festa e «comentar ladrando».
Portanto o filme onde gritei e exultei foi um modo de estar com os retardatários e avisar os outros três, já mais acima na subida, que a caminhada combinada de véspera estava a ter o seu começo.



Subida ao Penedo de Góis - o pior ia começar.


O Grupo retardatário fez uma pausa. Estava quase a entrar no mais penoso caminho até ao cimo. E já eram 11:13 h. Com o telélé, não consegui melhor.

Marido, que filmava ao meu lado com a sua máquina (eu não me entendo com ela ... ), clicou usando zoom e ficou bem melhor. Olhando bem a foto, penso que o «mandador» está a dar as instruções necessárias para que a subida decorra com precaução.

Boas e más notícias.

Boas Notícias - Melros já não podem ser caçados.

O desespero de quem é governado actualmente, eu nunca o senti. Sou do Século passado, passei e vi passar muitas coisas agradáveis outra menos, mas fomos levando.
O que neste momento é exigido ao Povo, quer este termo esteja ou não na Constituição, é um grande esforço mensal. O IVA do Gás da Cidade e da Electricidade vai subir para 23 %, a partir de Setembro. Para além do resto que já foi «desviado» dos bolsos do Povo português, por uma classe política que não tem feito o trabalho de casa, que mais estará para nos acontecer. Poupar, é a minha divisa. Que fazer?
Haja uma notícia agradável, graças aos esforços de muitos, de uma petição de outros,e algum bom senso. O Sr. Daniel Campelo, novo secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, mandou proferir um despacho que retira o melro da lista de espécies cinegéticas. A este senhor, eu quero dizer, em nome de todos os que apreciam este belíssima ave, parabéns pela tomada de posição.
Amanhã estamos a pensar ir até lá acima. Olhar e ficar em silêncio, é o que preciso. Estará mais fresco, dizem as previsões. Ainda bem. Serão 3 dias fora deste cidade que é a minha, mas que me cansa muito. Com sorte, olharei o melro, que voa baixo, da flora autóctone da ruína ao meu lado para o poço, em ruína, em frente. Seria um momento feliz apanhá-lo, num clic, e trazê-lo para Lisboa. Logo veremos.
Bom fim de semana e bom feriado.


Ontem, 4ª feira, 10 de Agosto

Impossível estar-se confortável em dias super-quentes. Não me dou muito bem com o tempo excessivamente quente. Sempre que a temperatura ultrapassa os 30 graus, pareço uma galinha, de bico aberto, mas em vez de me deitar, como fazem os povos dos lugares quentes, não paro sossegada. Pois foi. Que calor! Tinha as janelas e os estores fechados, é assim que faço. Só à noite, abro tudo, para entrar o fresco da noite e os mosquitos também. Raça de mosquitinhos que este ano nos apoquentam. Não fazem barulho, não são melgas, mas as bábas aparecem e dão uma comichão doida.
Entrei na cozinha. Passava das 17 h, tinha de pensar no jantar, mas ia-me dando uma coisinha má.
E a culpe é dele. Do π'u (Pi'u) O que eu passo, só por causa do meu canário ser feliz. Bastou um palmo de janela aberta para sua excelência se distrair e o calor entrou. Ele adora o calor, eu nem por isso. Canta, repenica o canto, molha a cabeça com frequência na banheira, mas coisa estranha, é que eu nunca vi um canário que não se soubesse banhar. Este é mesmo só a cabeça, até tem as penas da cauda escuras. Dada a ignorância do bicho, eu borrifo-o. E ele gosta. Lavar-lhe a cauda com sabão azul e branco vai ser programa para Marido se entreter, antes de férias. Tenho receio de o agarrar e depois abrir a mão e não vai sair de casa assim, todo sujo.
Mas ontem, ontem foi demais. Como poderia estar tão quente, na cozinha? Olhei o termómetro, prantado no frigorífico. Marcava 30 graus Centígrados. Credo! Não terei eu algumas sobras no frigorífico para uma refeição rápida? E tinha. Saí da cozinha e só voltei a lá entrar quando começou a correr um fresquinho, eram 18h e picos. Abri as janelas todas, pus a ventoinha a trabalhar e comecei a minha faina. Preparar os ingredientes para uns Pataniscos de Corvina com uma salada de feijão verde.
Amanhã, parece que continua quente. Céus!

Por causa do Melro. Uma petição que já assinei

Não consegui, ainda, clicar um melro. Tenho-os como vizinhos, em frente à minha janela. Vejo-os voarem. Voam baixo, é difícil clicá-los. Se o governo, seja ele qual for, acha que os melros são uma espécie cinegética, pensa mal. Ou antes, não pensa. Um pássaro que nos encanta com o seu canto ser alvo de um caçador desportivo? Que virá a seguir? Oficializam a «fisgas» para caçar pardais? Ou andorinhas?
Há tanta incompetência à solta, céus! E esta incomoda-me muito.
Assinei aqui a petição que decorre há umas semanas. Não sei se fará alguma mossa, mas deveríamos assinar, todos os que se sentem incomodados com esta lei estúpida.
Fica um poema, brilhante, de Guerra Junqueiro. Estas «coisas escritas» pelos nossos Escritores, passo a redundância, eram de leitura obrigatória no meu tempo de estudante. Ler Guerra Junqueiro, alguém se lembra?
Roubei-o na NET.

O MELRO

O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro; dentre a horta,
Dizia-lhe: "Bons dias!"
E o velho padre-cura
não gostava daquelas cortesias.

O cura era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro:
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro desprezava os exorcismos
Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
Até que ultimamente
O velho disse um dia:

"Nada, já não tem jeito!, este ladrão
Dá cabo dos trigais!
Qual seria a razão
Por que Deus fez os melros e os pardais?!"

E o melro entretanto,
Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente
A madrugada clara,
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apesar disto, o rude proletário,
O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.

Que grande tolo o padre confessor!

Foi para a eira o trigo;
E, armando uns espantalhos,
Disse o abade consigo:
"Acabaram-se as penas e os trabalhos."
Mas logo de manhã, maldito espanto!
O abade, inda na cama,
Ouvindo do melro o costumado canto,
Ficou ardendo em chama;
Pega na caçadeira,
Levanta-se dum salto,
E vê o melro, a assobiar, na eira,
Em cima do seu velho chapéu alto!

Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre-cura andava enfermo;
Não falava nem ria,
Minado por tão íntimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura
(Muito embora o leitor não me acredite),
Que o bom do padre-cura
Perdera o apetite!

Andando no quintal, um certo dia,
Lendo em voz alta o Velho Testamento,
Enxergou por acaso (que alegria!,
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros, escondido
Entre uma carvalheira.

E ao vê-los exclamou enfurecido:

"A mãe comeu o fruto proibido;
Esse fruto era minha sementeira:
Era o pão, e era o milho;
Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Igreja. Estou vingado!"

E, engaiolando os pobres passaritos,
Soltava exclamações:
"É uma praga. Malditos!
Dão me cabo de tudo esses ladrões!
Raios os partam! Andai lá que enfim"

E deixando a gaiola pendurada,
Continuou a ler o seu latim,
Fungando uma pitada.

Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda douradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
Das plantas dos herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginais as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as crianças.

Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura,
Destacava na frouxa claridade,
Como uma nódoa escura.
E, introduzindo a chave no portal,
Murmurou entre dentes:

"Tal e qual tal e qual!
Guisados com arroz são excelentes."

* * * * * *

Nasceu a Lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, aveludado,
Do sorriso dos mártires, dos justos.
Um eflúvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da matéria
Murmuravam diálogos gigantes
Pela amplidão etérea.
São precisos silêncios virginais,
Disposições simpáticas, nervosas,
Para ouvir falar estas falas silenciosas
Dos mundos vegetais.
As orvalhadas, frescas espessuras,
Pressentiam-se quase a germinar.
Desmaiavam-se as cândidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar.
..................................................
..................................................

E nisto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar, andou buscando
Umas penugens doces como arminho,
Um feltrozito acetinado e brando.
Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e, louco e mudo,
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.

"Quem vos meteu aqui?!" O mais velho,
Todo tremente, murmurou então:

"Foi aquele homem negro. Quando veio,
Chamei, chamei
Andavas tu na horta
Ai que susto, que susto!, ele é tão feio!
Tive-lhe tanto medo! Abre esta porta
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos a construir a nossa casa
Num bonito lugar
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas
Para voar, voar!"

E o melro alucinado
Clamou:

"Senhor! senhor!
É porventura crime ou é pecado
Que eu tenha muito amor
A estes inocentes?!
Ó natureza, ó Deus, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
Os filhos que eu criei!
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,
Quanta noite perdida
Nem eu sei...
E tudo, tudo em vão!
Filhos da minha vida
Filhos do coração!!!
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o Céu par voardes,
E prendem-vos assim desta maneira!
Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano,
Eis o aguilhão, a fé que nos abrasa
Encarcerar a asa
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! Quase à noitinha
Parti, deixei-os sós
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
De mais ninguém! Que atroz!
E eu devia sabê-lo!
Eu tinha obrigação de adivinhar
Remorso eterno! eterno pesadelo!
.................................................

Falta-me a luz e o ar! Oh, quem me dera
Ser abutre ou fera
Para partir o cárcere maldito!
E como a noite é límpida e formosa!
Nem um ai, nem um grito
Que noite triste!, oh, noite silenciosa!"

E a natureza fresca, omnipotente,
Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heróis.
Nas sebes orvalhadas,
Entre folhas luzentes como espadas,
Cantavam rouxinóis.

Os vegetais felizes
Mergulhavam as sôfregas raízes
A procurar na terra as seivas boas,
Com a avidez e as raivas tenebrosas
Das pequeninas feras vigorosas
Sugando à noite os peitos das leoas.
A lua triste, a Lua merencória,
Desdémona marmórea,
Rolava pelo azul da imensidade,
Imersa numa luz serena e fria,
Branca como a harmonia,
Pura como a verdade.
E entre a luz do luar e os sons das flores,
Na atonia cruel das grandes dores,
O melro solitário
Jazia inerte, exânime, sereno,
Bem como outrora o Nazareno
Na noite do calvário!

Segundo o seu costume habitual,
Logo de madrugada
O padre-cura foi para o quintal,
Levando a Bíblia e sobraçando a enxada.
Antes de dizer missa,
O velho abade inevitavelmente
Tratava da hortaliça
E rezava a Deus-Padre Omnipotente
Vários trechos latinos,
Salvando desta forma, juntamente,
As ervilhas, as almas e os pepinos.

E já de longe ia bradando:

"Olé!
Dormiram bem? Estimo
Eu lhes darei o mimo,
Canalha vil, grandíssima ralé!
Então vocês, seus almas do Diabo,
Julgam que isto que era só dar cabo
Da horta e do pomar,
E o bico alegre e estômago contente,
E o camelo do cura que se aguente,
Que engrole o seu latim e vá bugiar!
Grandes larápios! Era o que faltava
Vocês irem ao milho,
E a mim mandar-me à fava!
Pois muito bem, agora que vos pilho
Eu vos ensinarei, meus safardanas!
Vocês são mariolões, são ratazanas,
Têm bico, é certo, mas não têm tonsura
E, nas manhas, um melro nunca chega
Às manhas naturais de um padre-cura.
O melhor vinho que encontrar na adega
É para hoje, olé! Que bambochata!
Que petisqueira! Melros com chouriço!
E então a Fortunata
Que tem um dedo e jeito para isso!
Hei-de comer-vos todos um a um,
Lambendo os beiços, com tal gana enfim,
Que comendo-vos todos, mesmo assim
Eu fico ainda quase em jejum!
E depois de vos ter dentro da pança,
Depois de vos jantar,
Vocês verão como o velhote dança,
Como ele é melro e sabe assobiar!"

Mas nisto o padre-cura, titubeante,
Quase desfalecendo,
Atónito de horror, parou diante
Deste drama estupendo:

O melro, ao ver aproximar o abade,
Despertou da atonia,
Lançando-se furioso contra a grade
Do cárcere. Torcia,
Para os partir os ferros da prisão,
Crispando as unhas convulsivamente
Com a fúria dum leão.
Batalha inútil, desespero ardente!
Quebrou as garras, depenou as asas
E alucinado, exangue,
Os olhos como brasas,
Herói febril, a gotejar em sangue,
Partiu num voo arrebatado e louco,
Trazendo, dentro em pouco,
Preso do bico, um ramo de veneno.
E belo e grande e trágico e sereno,
Disse:
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa mas a alma voa
Ó filhos, voemos pelo azul! Comei!" -

E mais sublime do que Cristo, quando
Morreu na Cruz, maior do que Catão,
Matou os quatro filhos, trespassando
Quatro vezes o próprio coração!
Soltou, fitando o abade, uma pungente
Gargalhada de lágrima, de dor,
E partiu pelo espaço heroicamente,
Indo cair, já morto, de repente
Num carcavão com silveiras em flor.

E o velho abade, lívido d'espanto,
Exclamou afinal:
"Tudo o que existe é imaculado e é santo!
Há em toda a miséria o mesmo pranto
E em todo o coração há um grito igual.
Deus semeou d'almas o universo todo.
Tudo que o vive ri e canta e chora
Tudo foi feito com o mesmo lodo,
Purificado com a mesma aurora.
Ó mistério sagrado da existência,
Só hoje te adivinho,
Ao ver que a alma tem a mesma essência,
Pela dor, pelo amor, pela inocência,
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
Só hoje sei que em toda a criatura,
Desde a mais bela até à mais impura,
Ou numa pomba ou numa fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!
............................................................
Ah, Deus é bem maior do que eu julgava"

E quedou silencioso. O velho mundo,
Das suas crenças antigas, num momento,
Viu-o sumir exausto, moribundo,
Nos abismos sem fundo
Do temeroso mar do Pensamento.
E chorou e chorou A Igreja, a Crença,
Rude montanha, pavorosa, escura,
Que enchia o globo com a sombra imensa
Dos seus setenta séculos d'altura;
O Himalaia de dogmas triunfantes,
Mais eternos que o bronze e que o granito,
Onde aos profetas Deus falava dantes,
Entre raios e nuvens trovejantes,
Lá dos confins sidérios do infinito;
Esse colosso enorme, em dois instantes
Viu-o tremer, fender-se e desabar
Numa ruína espantosa,
Só de tocar-lhe a asa vaporosa
Duma avezinha trémula, a expirar!
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E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:
"Há mais fé e há mais verdade,
Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!..."
Termino com uma frase, que estava na mesma página do poema:
Duas coisas são infinitas: O universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.
Albert Einstein