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Casas vazias com estórias

Passagem para os serrados


Entrada para a casa antiga

Nesta área estava a manta sobre o mato...



Saí de casa, numa tarde muito quente deste último Setembro, de máquina pendurada ao pescoço. Vou para baixo ou subo? Cortei à esquerda, subi devagar a calçada íngreme de pedras brancas. Fui olhando as casas, algumas em ruínas, recordando quem lá viveu. Não andei muito e dei comigo aqui, neste local com estória, das minhas inúmeras passagens pela Cerdeira com a senhora minha Avó, mal começavam as férias de Verão. 
Está assim, com ar de abandono e de de ninguém por aqui passar há tempos, nem a caminho dos Serrados, agora por amanhar. 
Olhei à volta à procura de poiso, queria viajar no tempo. Resolvi ficar de pé, pois não estou só e não desejo de modo nenhum incomodar outras criaturas que sabemos gostam de aqui para sua casa. Espequei-me ao lado da figueira quase brava, que vem estendendo os seus ramos até às silvas que por sua vez já tentam entrar por baixo da porta encerrada. Casa adentro. Casa vazia de gente.
Dantes, lembro-me, esta casa era térrea, com as lojas para a rua e nas traseiras, ainda cá está, a  entrada. Um pé alto com pouca altura, assim permaneceu durante muitos anos. Até Ti'Águsta e Ti'António da quinta se irem ambos. É no sítio Pissarrinha. 
Puxei pela memória, fiz-me a miúda que fui a passar férias com a Avó Olinda, que gostava muito de se juntar a esta prima, a Ti'Águsta da quinta (era a da quinta por haver outra Águsta, a do Casimiro) para falarem, delas e dos outros. 
Lembro-me que se riam muito. Riam até às lágrimas. Dos temas, não, não me lembro. A este duo divertido, juntava-se por vezes a Ti Ana, uma mulher grande, mais redonda que a Avó Olinda, vestida de preto e com os cabelos brancos apanhados em carrapito. Não era prima, mas virava-se muito para estas bandas. Por vezes trazia a sobrinha Matilde, miúda da minha idade que hoje vive na Lousã e já é avó.
Há meio século atrás, não sei se alguém que me lê se lembra, colocavam mato nas ruas e à entrada das casas. Era uma maneira de manterem o piso seco e as casas menos sujas. É que depois, sempre passavam os bois e os rebanhos de cabras, largavam os seus «presentes» e era tudo reciclado para adubar as terras. Sorriu e penso mudámos assim tanto por aqui? Que o que se entende por saneamento básico, que é a atividade relacionada com o abastecimento de água potável, o manejo de água pluvial, a coleta e tratamento de esgotos, a limpeza urbana, o manejo de resíduos sólidos e o controle de pragas e qualquer tipo de agente patogénico, visando a saúde das comunidades, ainda hoje não se faz a sério. Existem por cada casa, as fossas, algumas séticas, outras encanadas para locais que nem vou escrever; a água das chuvas, leves ou intensas, desce as calçadas e arrasta os resíduos; o que sai das torneiras, é mal pago mas bem taxado, não engolido sem se ferver e há as fossas, que no querido mês de Agosto não aguentam o uso e derramam o seu conteúdo. Os lixos, apesar dos recipientes camarários, ainda salpicam os caminhos, deixados, mandados, despejados. De electricidade em casa, só há uma vintena de anos se usufrui. Cobertura de redes para viajar na Internet com o Magalhães :) ou o simples uso de telemóvel, népia. Em pleno Século XXI, no Portugal, país europeu aderente ao Euro. O nosso futuro está longe de ficar mais civilizado.
Mas andemos, na escritura da memória. Estava a recordar o mato fofo nas traseiras da casa, coberto com uma manta de trapo, sobre a qual nos sentávamos, já com o sol passado para poente da casa. Estava bem ali, depois do lanche, a olhar o céu, a brincar com caruma, com bichos de conta e com carreiros de formigas, às cinco pedrinhas (que me lembrei eu) porque era uma criança-neta com sua querida avó, era bem tratada, estava fresco e cheirava bem. 
Volto à casa e à sua dona, a modos de despedida. A porta sempre aberta quando eu dava a volta e aqui me têm. Lá de dentro, no escuro com cheiro de lenha a arder na cozinha, de broa e sardinha frita,  surgia uma mulher pequenina e franzina, bonita, com um lenço na cabeça, a limpar mãos ao avental e uma voz que ainda consigo lembrar, fina e arroucada da Ti'Águsta da quinta: «Ó minha querida, estás tão bonita hoje! Dá-me um beijinho...»
Lamento muito olhar para «isto». Foi uma casa de família - lá nasceram 5 raparigas e 1 rapaz, se não me falha a memória. A maioria multiplicou-se e procuraram outras moradas. Presentemente a casa da Ti 'Águsta da quinta é de quem a habita. É das silvas e de outras criaturas autóctones, não dos herdeiros, que não a habitam. Por isso deu-me vontade de contar esta estória, que eu protagonizei. Para deixar aqui.
O cheiro a figos e a amoras invadiu o meu atual espaço, trazido por uma aragem quente. Saudades delas, pensei, ao clicar as fotos. Muitas foram as horas que aqui me senti bem, eu, a única miúda guardada pelas três mulheres, que conversavam entre si e riam muito do que contavam. E que já se foram. Olinda, Augusta e Ana. Porque «quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana»*


Escrito em 30 e Setembro de 2011.


*Marguerite de Crayencour

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A Ribeira Cimeira está mais pobre


É costume ser ao contrário. Mas foi assim, desta vez. Do Facebook, trouxe:

‎Para "Ana Paula Bandeira. Foi tão pouco o tempo que tive para continuar a provar do seu Licor de figo. Sabíamos da existência uma da outra, mas nunca nos chegámos. Foi numa tarde, talvez de um Agosto, no Esporão, à porta do restaurante do João, através da minha cunhada Alice Lima Pinto, que nos apresentámos e aos seus filhos. O seu sorriso aberto contagiou-nos. Depois foi a nossa ida à Ribeira, a duas das vossas «feiras». E foi aqui, no FB, por pouco tempo. Soube agora, pela minha prima Prima Laura, da sua ida. Já descansa, depois de uma grande luta contra um mal terrível que a venceu por fim. Estou sem palavras, embora não surpreendida. 

Lembrei-me de um livro de Fynn e dedico-lhe o seu título: «Senhor Deus, esta é a Ana». 
No final da estória há o poema «Quando eu morrer» por Ana, que diz assim:

Quando eu morrer
morrerei por mim própria
ninguém o fará por mim.
Quando eu estiver pronta
Direi
«Fynn, põe-me de pé»
e olharei
e rirei muito contente
e quando cair
é porque morri.
 Até sempre Ana Paula Bandeira.

José Bandeira, Diana Bandeira, João Bandeira, os nossos pêsames."

A Lousã, para visitar com ternura

É um prazer para os sentidos visitá-la. Continua uma bonita Vila, a crescer para o céu. Tem gentes de diversas nacionalidades, que escolheram lá viver. São louríssimos de olhos azuis alguns. Outros morenos, falando português com algum sotaque.
É agradável, pelo menos para mim, pertencer a um País onde outros Povos o adoptaram para viver. Nem o nosso idioma falam correctamente, mas subsistem e multiplicam-se. Os seus putos cá nascidos frequentam as «nossas» escolas. Racistas, nós? Não.
Penso que nunca conheci a Vila da Lousã tão bem como hoje, uma 3ª feira de Setembro, já quase a finalizar as férias.
Visitámos Marisa, no Refill e Olinda, no «Esporão Carnes». Entre uma e outra, colhemos informações sobre onde ficava a Gostos e Traços e também onde almoçar. É que o Casa Velha estava fechado para férias. Eles lá sabem porquê. Mas antes do almoço, tivemos de fazer a visita, já prometida no Facebook, à «Gostos e Traços», uma loja de Produtos Regionais, em começo de actividade, pelo menos pareceu-me, na Praça Sá Carneiro. Demos com aquilo, já perto das 13h e sob um calor de assar. Apresentá-mo-nos ao jovem casal que nos contou ter emigrado de outras cidades lusas para a Vila da Lousã e lá se instalou. Olhámos à volta e ai, tantas coisas boas para trazer. Escolhemos Mel de Rosmaninho e de Urze, premiados. Um queijo, que vai «empestar» a nossa cozinha, pelo cheiro que emana. Nem sei se vamos aguentar este aroma por uns dias. Era uma Merendeira Queijo  Amarelo da Beira Baixa, produzido pela DAMAR, no Fundão. Já chega!, pensámos em voz alta. Passaram factura, pagámos, prometemos voltar, para o ano, e fomos em busca do restaurante para almoçar que já passava da hora e o estômago pedia alimento. 
Deixámos o carro numa praça frondosa, perto da Igreja, num buraquinho mesmo à recta. 33 graus de temperatura era obra para mim e para a Bi, coitada, de língua de fora no banco detrás. Com os vidros um dedo abertos, água numa taça, lá ficou, deitada, como é hábito.
Percorremos uma rua, comprida, passámos o Meliá Hotel da Lousã, algumas edificações antigas, de traça muito bonita e fomos verificando que, ao contrário de outras cidades, há imensas lojinhas com ofertas variadas a quem como nós, em férias, trás uns euritos para gastar e levar uns miminhos de preferência «compre o que é nosso» para os amigos e família de Lisboa.  
Pela rua fora, aproveitando a sombra à direita, lá íamos, marido à frente. A falta de forças exigia-me algumas paragens. Bolas! Para se comer qualquer coisa é preciso este esforço todo! Lá estava o Tapas, num prédio muito bonito, branco e amarelo.


Gostos e Traços e os seus proprietários.


Tapas, em fundo. Aleluia!


Numa sala fresquíssima, degustámos uma Sopinha de hortaliça com puré de cenoura.


A seguir, Pasteis de bacalhau com arroz de tomate e salada para mim. Eu não faria melhor.


Uma Feijoada para marido que eu provei apesar de ser Verão. Estava bem temperada com carnes e enchidos de boa qualidade. Eu não faria melhor.

Seguiu-se Melão para mim. Sobremesa de mousse de chocolate para Marido. Café. No final, um pouco mais de meia dúzia de euros cada um. 
Olinda e Marisa, obrigada pela dica. Tinham razão. No Tapas, comeu-se muito bem. E tanto a «gerente» como a «mocinha», foram muito solícitas, a perguntarem se tínhamos apreciado, se estava tudo bom. Muito bom. Prometemos partilhar a experiência. E haveremos de voltar. 


No fundo do Lugar, aproveitando uma sombra

Mateus debulhando feijão. Uma tarefa que, sendo realizada na solidão, pode tornar-se um castigo. 

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Obrigada pela visita

O meu amiguinho Afas, em meados de 2008, foi clicado por mim, à porta do Lote 5, em altas velocidades pelo passeio abaixo.
Como o tempo passa depressa.
É muito bom sentir este rapazinho manter-se Amigo. Quero eu dizer que, como vizinha cota, o receio de perder a sua visita é normal. Se nem os «sobrinhos» se lembram ...
Mas ainda não foi desta. Apareceu há dois dias. Para contar das férias, das viagens e de coisas giras que aconteceram. É um puto bem disposto, exigente nos gostos e com muito bom aproveitamento escolar. Aparece com o tempo contado. Após uma conversa sobre como vai a vida, com a sua voa arroucada pergunta-me sempre se tenho o computador ligado porque me traz novidades dos mais recentes exitos que nos fazem, a mim e a ele, ficar bem dispostos. Dos meus gostos musicais ele já adoptou alguns, rockeiros no máximo. Dos gostos dele é perfeitamente normal eu já não acompanhar, pois o meu tempo é outro e raps, hip-hop e hurbanes ou afins, não me seduzem. E ele compreende, sou cota não é?, o que me deixa encantada.
Desejo a este rapaz muita saúde e sorte que nos seus 14 anos e no contexto atual, bem precisa. Ele e toda uma geração de gente a «fazer-se» que tem de dar a volta à isto.
Verei? Veremos :).

Um xi-coração Afas.
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Há dias assim


Fomos a Alpiarça. Um passeio giro. O Ribatejo está verdíssimo, com as culturas do arroz. Ainda se vêem bancas de melão, mas poucas, pela Nac 118. Chegados a Almeirim dirigi-mo-nos ao Pinheiro. Fechado para férias, no mês de Julho. Ora bolas. Perguntámos por um idêntico e aconselharam o Paulos. O bacalhau estava um bocadinho apetitoso, mas as mães acharam que se comia. O ambiente era agradável. Quando saímos para a rua, levámos um murro de calor. Nem deu para uma voltinha. Seguimos para a feira do melão. Chegados à vila de Alpiarça, a Casa dos Patudos e o Museu de José Relvas apresentaram-se à nossa esquerda. E a feira? Nada indicava aos visitantes de longe, o local da mesma. Como quem tem boca vai a Roma, parámos e lá houve uma senhora que invertêssemos a marcha e que virássemos na esquina do millenium, que sempre em frente e perto.
A feira estava montada num local arborizado, em terra batida, junto a um rio. Era o Parque do Carril. Pouca gente, sons da minha calça abotinada, meu sapatinho de bico, carros de melões, melancias e meloas, cão em terra areada, calor e cheirava a sardinha assada.
Dirigi-me ao som. Preparei o telélé. Junto a uma banca com trajos regionais fiz poiso e comecei a filmar um jovem à esquerda e um grupo de outros jovens um pouco à direita. Pareciam estar a treinar para qualquer coisa mais séria. De repente, uma voz feminina fez-se ouvir e pelo canto do meu olho deu para ver que se dirigia à minha pessoa.
- Eu conheço a sua cara!
quê? pensei, mas respondi
- Ando por aí, ando por aí
e o filme já era. e vai ela
- Não, não é de cá e eu também não sou
sem saber o que dizer por causa da filmagem, repliquei
- Então é de onde?!
- De lisboa
ai ai que isto já não fica nada de geito e respondo
- Eu também
e ela, com alguma certeza na voz
- Trabalhou no IPO
deixa lá o filme, mas quem é ela?!
- Trabalhei
olhámo-nos, perdi o alvo e ainda ouvi ela dizer
- E aquela cara também.
E a outra. Referia-se a Marido e Sogrinha.
Desliguei o telélé. Dirigi-me a ela de braços abertos «Olha a enfermeira Margarida! Há quantos anos! Reconheci-te pelos olhos...». Vai ela «Eu é que te reconheci. Que fazem por aqui?» Vimos aos melões! Abraços, beijinhos e o Pedro também anda por aí. O Pedro?! Ai, o Pedro, que Pedro? Quando o vi aproximar-se fez-se luz. Olha o Pedro! Mais beijinhos, mais sorrisos e foi bom. Mais de 20 anos passaram...
Enquanto trocávamos conversas diversas sobre o que era a nossa vida, o melão era o fito de Marido. «Onde está o melhor melão?» Eram tantas as camionetas. «Vão ali àquela banca e provem. É todo de Alpiarça, não há cá nada de Almeirim.»
A eterna rivalidade entre dois vizinhos: o meu é melhor que o teu.
«Fiquem que daqui a pouco vai haver festa...» Não podíamos. «Vamos aos melões e umas duas melancias, que só eu sou apreciadora e só tenho duas mãos. E está muito calor, não dá para ficar...»
Troca de números de telefone e tínhamos mesmo de seguir viagem. Um clic ao casal, despedidas. Até.
Ficou este filminho, de fraca qualidade técnica, mas de conteúdo inigualável e inesperado.
Às vezes questiono-me sobre esta mania de nos dirigir-mos na rua a pessoas que passaram parte das suas vidas no mesmo local de trabalho que nós.
Nas mais diversas profissões e serviços que aquele hospital ainda é grande. Médicos, enfermeiros, assistentes sociais, secretariado ou auxiliares são olhados na rua e de repente indagados «lembra-se de mim?». Meio atrapalhados ficamos porque por vezes a memória é lenta na procura dos traços mais familiares. As pessoas mudam a sua fisionomia e o seu corpo com o passar dos anos. Por vezes é a voz que as identifica. Porque os nomes, ai os nomes, é o pior. No entanto, se dissermos o «nome de guerra» e local onde trabalhámos, dá-se o clic.
A troca de momentos numas frases, fazem-me ficar feliz. E a memória voa, lá atrás no tempo e durante uns momentos fico por lá, naquele espaço bom onde trabalhei.
O nosso IPO de Lisboa foi um local onde o estar vivo e a mexer me marcou, nos marcou penso, a todos os que lá trabalharam. Ainda por cima sou da geração que viveu e sentiu o Abril de 74 como uma porta aberta a outros mundos, a outra maneira de ser e de estar nesta vida. Que estórias para contar. Que mudanças ultrapassámos. Que ilusão todos estes anos, penso agora.
Aquela casa tem um lema, o de Francisco Gentil: o doente em primeiro lugar. Não o conheci pessoalmente, claro, mas é minha convicção de que ainda continua a ser assim. O lema.
O reconhecimento, o respeito e o convívio ... esses não sei.

A festa do melão continuou. Fotos buscadas aqui. E Pedro guardou uma publicação que um dia destes temos de ir buscar. Saúde Margarida e Pedro!


Parabéns João

Este é o João. Um Minhoto, penso que dos quatro costados. Faz hoje 40 anos. Diz-me que entrou na idade dos cotas. Pois. Será João?
Considero-o um amigo, desde as seus 17 primaveras, quando veio para baixo, para a terra dos mouros, para trabalhar com o tio. Fez a tropa e por cá ficou. Oriundo de uma grande família, é um rapaz como é costume dizer-se «de trabalho e amigo do seu amigo». O que mais lhe posso desejar senão muita saúde e como é de praxe, muitos anos de vida?

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Encontrei a foto da postagem de ontem

O amigo ido ontem, Manuel Oliveira, é o 2º a contar da esquerda. À sua frente, a mulher, Geraldina, num clic que registei em Setembro de 1998, por altura de um lanche levado pelos meus primos Afonso e Palmira, a modos de despedida de férias, a um cantinho da Serra da Lousã. Contei a estória .

Rosinha já não está. Desde ontem.

Não é uma rosa mas outra flor, uma flor para uma mulher de sua graça Rosa Maria.
Procurei no meu imaginário e lembrei que, quando cheguei ao seu Serviço em 1974, no Laboratório de Isótopos Abílio Lopes do Rego no IPO de Lisboa, hipotética-secretária-verde-em-experiência e eventual, já Rosa Maria tinha estatuto de Preparadora do Quadro. De certeza com mais uns 15 anos do que eu, criou-se uma empatia entre nós. Lembro-a sempre magra e de cabelo liso, curto e escuro que os anos passaram a grisalho, óculos e cigarro entre dedos, andar miudinho e quase sempre de calças a aparecerem por debaixo da bata branca. Era cordial com os doentes e exigente no trabalho. Assumiu a sua escolha política na ala esquerda. Como eu não tinha medo de quem «comia criancinhas ao pequeno almoço» e «dava injecções atrás das orelhas dos velhos», tinha os ouvidos bem abertos e deixei-me ir na onda. Ser da esquerda era giro. Colar cartazes nas paredes com um grude feito de água e farinha, ocupar por uma noite o possível «infantário de 7 Rios» de modo a transformar um local odiado num bem diferente, assistir às sessões de propaganda política, ir em manifes da função pública, era tudo tão novo e diferente! Foram uns bons anos de luta reivindicativa os anos de 74 a 76. O início de uma nova maneira de estar e sentir a vida, de aceitação de novos comportamentos, de desafios, de amizades e de desaguisados, de aprendizagens ... foi a Rosinha que me vendeu 4 desenhos de Álvaro Cunhal, que emoldurados preenchem uma das paredes cá de casa.(*)Depois fui abrandando. Ela continuou. Sempre que olhar os desenhos vou lembrar que já não estás.
Eu saí e fui para outro serviço mas o acaso encarregou-se de nos promover pequenos encontros dentro dos muros do hospital. Quem se quer bem, sempre se encontra, diz o ditado. Aí trocávamos um olá como vais e uns sorrisos, umas referências a isto ou aquilo e seguíamos o nosso caminho. Foi isto que guardei de Rosinha.
A minha fila vai diminuindo. Os que chegaram primeiro, vão partindo primeiro. Alguns. Outros vão antes de tempo. É a Vida.
Inté Rosinha.

(*) http://www.citi.pt/cultura/artes_plasticas/desenho/alvaro_cunhal/desenhos.html conta a estória dos desenhos.

Gente boa.

Há falta de baloiço, uma embaladora de sonos faz o mesmo efeito.
Quem não tem cão caça com gato.

A «minha» primeira bicicleta.

Gosto pela aventura na água gelada.

Sem medos, na barroca. Adorei conviver com este puto :).

Mais um que se foi. Deixo-lhe uma flor.

Procurei primeiro na minha mente. Não. Tornei a procurar nas fotos guardadas. Também não. Não tenho foto alguma de Ti Guilherme, nascido na Aigra Nova ia fazer 90 anos. Parece-me que eram 90.

Ti Guilherme foi casado com Ti Gracinda, da Cerdeira, que faleceu ainda nova e há muitos anos. Lembro-me do sorriso dela. Eram pais de Mila, uma lisboeta como eu, da minha geração.

Ora bem. Ti Guilherme, faleceu ontem e vai descer à terra hoje, em Góis.

À Mila e suas duas filhotas deixo aqui os meus sentidos pêsames.

A Ti Guilherme, inté!

Um fim de semana sozinha. A ler de novo O Principezinho

É meio dia de Domingo. Vim até aqui teclar. Desabafar um pouco. Escrevo sobre a família. E sobre os outros. Aqueles que vamos cativando ao longo da nossa vida.
A família próxima é pequena e tende a reduzir, como é natural e doloroso.
Amigos que consegui cativar contam-se pelos dedos. A maioria começou a não estar. É uma maneira de me aperceber que avanço na idade e que quanto mais velha estou, mais possibilidades tenho de assistir à partida deles. Os jovens não têm a percepção dessa realidade. De que não vivemos para sempre.
Dos que ouço duas ou três vezes por ano, geralmente em dias de comemorações, são sempre uma fonte de recordações e falamos como se nos tivessemos olhado de véspera. Quando eu preciso de algum, sempre contei com a sua disponibilidade e ajuda. E ele conta comigo. Não há outra maneira de eu viver a vida, nem eles, por isso nos cativámos. Quase todos pertencemos à mesma geração, a mioria com mais meia dúzia de anos, outros com maior diferença na idade, muito poucos os mais novos. Quando eles partem, eu choro. Mas o trigo dourado estará, para eu os lembrar.(1)
O meu maior repto é para os da geração seguinte. Tenho alguma dificuldade em prender os meus mais novos. Que de meus só têm consanguinidade ou ordem formal e explícita da Lei. Refiro-me, claro está, aos sobrinhos. Quando eram novinhos, eu crei os laços mais ou menos apertados com os esses Principezinhos. Com o passar dos anos, agora uma, mais uns anos e vai outra, eles cortaram esses laços, assim, sem mais nem menos. Deixaram esta Tia pendurada nas recordações. Por vezes sinto-me muito só, sinto-lhes a falta, desejo até que o tempo voltasse para trás quando os olho nos cliques fotográficos que tenho espalhados pela casa e em álbuns. Não compreendo o porquê.
E o que preciso fazer?(2)
.....*.....
(1) «Julgava-me muito rico por ter uma flor única no mundo e, afinal só tenho uma rosa vulgar...
Foi então que apareceu uma raposa.
- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho.
- Anda brincar comigo - pediu o principezinho.- Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa.
- Ainda ninguém me cativou... Andas à procura de galinhas?
- Não, ando à procura de amigos. O que é que "cativar" quer dizer?
- Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa - Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo e eu serei para ti, única no mundo... Tenho uma vida terrivelmente monótona... Mas se tu me cativares, a minha vida fica cheia se Sol. Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Não me fazem lembrar de nada. É uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então quando eu estiver cativada por ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti
(2) «- Só conhecemos as coisas que cativamos - disse a raposa. - Os homens, agora já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não tem amigos. Se queres um amigo, cativa-me!
- E o que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.»
(1) e (2) - Saint-Exupéry, O Principezinho, Ed. Circulo de Leitores, 1987, Tradução de JMV

Dia de fazer mais um ano

Este é o meu amiguinho «Afas», em foto-pastel, a fazer bochecha. Hoje começa os 13 anos, o maroto. Esperto, inteligente, interessado, costuma visitar-me quando está na casa dos avós. É um fôfo.
Fico sempre feliz, independentemente dos meus afazeres. Ponho tudo de lado. Se ele se lembrar de me visitar, merece toda a minha atenção. Os dias vão passando e em qualquer altura é capaz de ser idêntico aos sobrinhos mais crescidos - esquece onde mora esta tia. Aproveitar bem o tempo que ele se dispões a passar comigo, com hora marcada para ir embora, é voltar a ser miúda, de novo.
Então é contar das suas disciplinas, da aprendizagem de bateria em casadele, que eu é que não gostava de ser vizinha dele, de bem montar a sela da «sua» égua na GNR, da última-nova namorada, de novos jogos da playstation, das músicas que descobre no youtube e me pergunta se conheço, de imitações de vários entertainments da nossa praça tipo bruno aleixo, enfim, é um gosto estar com ele. É bem disposto, compreensivo, um menino quase rapazinho de quem muito gosto.
Parabéns querido amiguinho pelo dia de hoje.

Beirut - Elephant Gun

Domingo passado. Almoço para conhecer a família de Graça, a minha amiguinha de juventude. Franciscos, pai e filho e uma Maria Helena. Graça, tens uma família linda. Para não esquecer o dia.


Um novo Bonsai, desta vez um Ligustrum

Mais uma vez, um Bonsai entrou na minha vida. Há coisas vivas que se podem substituir. Foi a minha amiga Belmirinha que fez muito gosto em procurar e encontrar uma destas arvorezinhas, uma que não desse muito trabalho e fosse mais resistente.
Ela assistiu à minha desesperança com o último, o Carmona, que acabou por morrer com cochinilha, sequinho sequinho.
Este é um Ligustrum e as instruções que traz não ajudam muito nos cuidados a ter. Indica um site, http://www.enjoybonsai.com/ que ainda não visitei.
Vai ser Aqui, que vou aprender a tratar deste, em língua Portuguesa.
Obrigada Belmirinha. Deseje-nos sorte :)


Estes são os Penedos de Góis. Olhados e clicados para oferecer a um amigo-virtual que deixou de o ser, porque fomos apresentados, na Póvoa, pela minha prima Palmira. É o autor do Penedos-de-Góis, blog que costumo visitar. É dos Povorais, um Lugar nos contra fortes deste pequeno gigante que me/nos encanta tanto. Um pequeno paraíso, a poente, estes Povorais. Povorais estão na foto. Com uma saudação amiga, Luis Neves, esta foto é sua. Pode levar.

Vamos chamar a atenção e estar atentos para que nenhum parque eólico seja construído no dorso deste pequeno-gigante.

Uma casa cheia.

10 horas da manhã de hoje. Calor. Quando liguei o telélé tinha sinal de mensagem. Abri e li:
Bom dia. somos a Mariana e a Liliana. Embora ainda sem visitas, chegámos ontem a casa da avó. Estamos bem de saúde e agradecemos toda a vossa preocupação.
Beijos.
As Alegrias da avó tiveram alta e chegaram ao seu ninho. Com 1 mês, três semanas e três dias antes do tempo, feitos hoje. Estamos muito felizes por terem lutado e conseguido ultrapassar a primeira fase. Uma luta vossa contra um tempo certo, que nunca mais chegava ao fim. Angustiante. No vosso Lar, no aconchego das coisas de casa, os sonos e os sonhos de todos serão diferentes. Irá correr tudo bem. Porque têm Pais e Avós que vos amam e estão convictos dos papeis a desempenhar na vossa vida.
Por cá, nós vamos ter de esperar autorização para vos conhecer e olhar. Vai haver tempo.
Vão crescendo com saúde, rodeadas de amor. É o essencial. É o nosso desejo.
Boa sorte Avós Júlia e Manuel *, Mãe Marta, Pai Marco e Gémeas Liliana e Mariana.
Dois sopros de beijos para as duas menininhas.
Da «tia-guida» e Família, com amor.
*PS em 23 de Agosto de 2009: O avô tem por sua graça não Manuel, mas JOSÉ!!! Mais uma vez troquei-lhe o nome. Desculpe :(

Sonho: uma viagem ao meu interior

Gabi: Recorte de foto de grupo

Ontem de manhã quando acordei, quis que fosse devagarinho. Senti-me saída de um bom sonho (é muito raro lembrar-me se sonhei). Tão bom que me imaginei ainda nele embora já estivesse bem acordada e de olhos fitos no branco teto do meu quarto.

Levantei-me e sem me mexer muito dirigi-me à janela, com a Bi a saltar à minha volta a pedir festas. Esqueci a minha amiga por uns instantes. Abri a janela encostei-me e acentei os braços, esticados para cima, com as mãos agarradas a cada uma das laterais. De olhos fechados respirei fundo. Os ruídos matinais da minha rua não foram suficientes para me arrancarem da sensação quase palpável do meu sonho. Eu continuava lá, nuns braços que me apertavam nos ombros e na cintura, de encontro a um peito vestido de branco com cheiro a alfazema. Suspirei. Ainda sentia o odor e o abraço. Estava tão em paz.

Neste sonho, por onde deambulei durante a noite, encontrei-me com a Gabi. Por entre uma doce neblina, num intervalo de abraço, vimo-nos. Ela vinha de vestido às flores, comprido que se arrastava pelo chão e com os ombros à mostra: *Gabi! Tás boa? - com sorrisos na cara enlaçámo-nos - há quanto tempo, estás na mesma e tão bonita ... e esse vestido!*. Lembro-me bem. Eu é que falei. Ela só sorriu para mim. Depois afastou-se, seguiu o seu caminho e eu senti-me de novo envolta naquele abraço perfumado. Que durou e durou. Até eu acordar. Quanto tempo? Não sei. Senti-me como lavada por dentro. Leve. A pairar, quase. O abraço e o aroma preduraram manhã fora, enquanto fazia a minha rotina matinal, até que se foi...

Que coisa, este meu cérebro ofereceu-me um bombom :) Hoje, é outro dia. Se sonhei esta noite, não me lembro.

P.S. Não é a primeira vez que sonho contigo, Gabi. Já não estás entre nós há uns anos largos, mas continuas guardada num cantinho do meu cérebro. Só pode ser. Não és um fantasma, és a recordação que em mim guardei. Posso afirmar-te que é sempre bom sonhar contigo Gabi de Porto Salvo, o teu nome de guerra no nosso serviço. Hoje, passadas algumas horas, continua em mim a impressão que procuro no mais recôndito do meu cérebro de quem seriam aqueles braços e aquele peito bem cheiroso. O monólogo, esse eu sei, foi entre nós duas. Descansa em paz.

Nasceram. Por enquanto, os seus nomes são Alegria

Qual será a Liliana? Qual será Mariana?
Sem a permissão dos vossos Pais, publico as duas vossas primeiras fotos. Não resisti. No entanto, poderão ser apagadas. Foram-me enviadas pela vossa Vó-Jolie, hoje, dia 18 de Junho de 2009, de tarde. Sorri e chorei de alegria ao olhar-vos. Corri para o computador e aqui estão. Não sei a que horas foram retiradas da barriguinha da vossa Mãe-Marta, nem quanto pesam nem o vosso tamanho. Só sei que estão cá fora, estão bem e não param sossegadas.
São tão pequeninas vocês duas! Sabem, terão de ficar nessas caminhas até ganharem mais peso. Afinal, já esperaram tanto tempo que vale a pena esperarem mais dois mesitos pelo tratamento de beleza que estão a iniciar. É porque faltam só os acabamentos. Vocês desconhecem, mas os acabamentos são sempre a parte mais necessária na terminação de qualquer obra-prima. Que é o que são vocês duas. Uma obra-prima.
E como nasceram bebés, nasceram também uma mãe, um pai, os avós maternos e uma bisavó materna!
Só eu não nasci, porque já sou tia. E tenho mais duas sobrinhas lindas.